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quinta-feira, 9 de agosto de 2012

QUANDO FOI 68? Brasil, contexto | Nordeste, engajamento e musicalidade

Aline

  A oposição ao governo de Costa e Silva, segundo presidente na linhagem militar brasileira após o golpe, aumentou expressivamente em 1968. Na medida em que as ações opositoras aconteciam, intensificava-se também a repressão policial. Em março, o estudante Edson Luís de Lima Souto foi morto durante manifestações estudantis no Rio de Janeiro – fato que desaguou numa onda de protestos, censurada com violência. A Passeata dos Cem Mil, em junho, afirmava “O povo organizado derruba a ditadura”. Em julho, atentados contra teatros e atores de esquerda. Em outubro, quase mil participantes do congresso clandestino organizado pela União Nacional dos Estudantes (UNE), em Ibiúna (SP), foram presos. Operários fizeram greves em Contagem (MG) e Osasco (SP), consideradas ilegais e, portanto, reprimidas.
       Enquanto as agitações quase depuseram Charles de Gaulle na França e Lyndon Johnson desistiu da reeleição nos Estados Unidos, no Brasil as consequências foram bem distintas. A resposta oficial veio no dia 13 de dezembro: o Ato Institucional nº 5 (AI-5), aprovado numa reunião do Conselho de Segurança Nacional (com apenas um voto contra). Decretava o fim das liberdades civis e de expressão. Um desfecho autoritário para um ano em que o Brasil, assim como o mundo, desejava autonomia.
       Com o AI-5, redações dos principais veículos de comunicação foram “invadidas” por funcionários da Divisão de Censura de Diversões Públicas da Polícia Federal, que passaram a controlar o conteúdo a ser publicado. Teatros foram destruídos, artistas sequestrados e interrogados, compositores e escritores exilados.
       A sensação de relativa liberdade de expressão, logo após o golpe de 64, “permitiu” no cenário cultural atuações que oscilavam entre o experimentalismo e o engajamento, a participação e a alienação. Foram inclusive esses antagonismos que provocaram, por exemplo, confrontos entre artistas nacionalistas de esquerda e vanguardistas do Tropicalismo – isto é, além dos militares, existia um tipo de “patrulha ideológica” por parte da esquerda nacionalista. Em 1967, a “passeata contra a guitarra elétrica” legitimou-se como manifestação ideológica contra a Jovem Guarda. Enquanto isso, os “tropicais” eram contra o autoritarismo e a desigualdade social, mas comungavam com a ideia de internacionalização da cultura e com a busca de uma nova expressão estética, irrestrita ao discurso político.
       Geraldo Vandré, cantor e compositor, era um dos artistas que iam de encontro a esse pensamento, por não valorizar a arte que não se comprometia com mudanças políticas e sociais. Num debate ocorrido na Faculdade de Filosofia de Natal, posicionou-se contra o universalismo de Gil e Caetano, porque era criado “um estado de espírito que nós realmente não sentimos”. Vandré, inclusive, era um dos primeiros artistas que a ditadura procurava depois do AI-5. Ele havia participado do III Festival Internacional da Canção com “Pra não dizer que não falei das flores”, canção que se tornou hino contra o regime militar. O compositor foi acolhido pela viúva do escritor Guimarães Rosa, na fazenda da família no sertão mineiro, até o momento de seguir para o auto-exílio.
Há soldados armados / amados ou não / quase todos perdidos / de armas na mão / nos quartéis lhes ensinam / uma antiga lição / de morrer pela pátria / e viver sem razão.” Pra não dizer que não falei das flores, Geraldo Vandré.

       No dia 27 de dezembro foi a vez de Caetano Veloso e Gilberto Gil serem presos. O estopim para a ação foi a última edição do programa Divino, maravilhoso que foi ao ar antes do Natal. Nela, Caetano cantou “Noite feliz” com uma arma apontada para a cabeça. O programa, marcado pela irreverência – apresentando por Gal Costa, Gil e Caetano –, foi exibido durante apenas dois meses pela extinta TV Tupi. Era dirigido por Fernando Faro e Antonio Abujamra, apresentou nomes de cantores debutantes como Jards Macalé e Jorge Ben. As fitas do programa foram destruídas pelos diretores, restando apenas registros fotográficos e na memória de quem fez e assistiu. Divino, maravilhoso era a resposta tropicalista aos programas da TV Excelsior O Fino da Bossa (com Elis Regina e Jair Rodrigues) e Jovem Guarda (com Roberto Carlos, Eramos Carlos e Wanderléia).
Em pé: Jorge Ben, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Rita Lee e Gal Costa. Abaixados: Sérgio Dias e Arnaldo Baptista. No dia da estreia do programa Divino, maravilhoso (28/10/68).
O programa era marcado por atuações irreverentes que não agradavam nem um pouco aos militares.

       De volta à prisão de Gil e Caetano, durante dois meses fizeram um tour por vários quartéis, até que, após o Carnaval de 1969, passaram a viver sob o regime de “confinamento” em Salvador – tendo de se apresentar diariamente ao chefe da Polícia Militar. Em seguida, foram “convidados” a deixar o país e iniciaram o auto-exílio em Londres.
       Movimentos e consequências à parte, no cenário da época, a participação nordestina e, em especial, a pernambucana foi muito enriquecedora, ainda que seu estudo seja menos tradicional diante das demais ações culturais que permearam o Brasil de 1968 em diante.


       Quando Gil veio lançar seu primeiro LP, Louvação (1967), em Recife, acabou passando uma temporada de um mês no teatro Hermilo Borba Filho, apresentando-se junto a Geraldo Azevedo e, os que viriam a ser integrantes do Quinteto Violado, Marcelo Melo e Luciano Pimentel. Conviveu com pessoas como Jomard Muniz de Britto, Aristides Guimarães (cantor e compositor à frente da banda Laboratórios de Sons Estranhos, LSE) e outros artistas e intelectuais locais que o mostraram as músicas da região: pastoril profano, maracatu, ciranda, banda de pífano. A junção de todo esse aparato regional à produção individual de Gil, pode ser já notada no segundo LP, Gilberto Gil, do ano seguinte.
Capa do LP homônimo de Gilberto Gil, 1968.

       Acontece que essa convivência não foi por acaso. Eram pessoas daqui que movimentavam a ideia tropicalista no Nordeste. Afinal, em Recife, João Pessoa e Natal, embora poucos admitam – nem mesmo Caetano registrou em seu livro Verdade tropical –, existiu um movimento tropicalista quase que simultâneo ao mais propagado. Em julho de 68, foi lançado o Inventário do Feudalismo Cultural Nordestino, terceiro manifesto tropicalista nordestino, “mais contundente e de maior amplitude” (TELES, 2000). Assinaram o documento: de Pernambuco, Jomard Muniz de Britto, Aristide Guimarães e Celso Marconi; da Paraíba, Marcus Vinicius (pernambucano radicado lá), Carlos Aranha e Raul Córdula; do Rio Grande do Norte, Dailor Varela, Alexis Gurgel, Falves da Silva, Anchieta Fernandes e Moacyr Cirne; e, representando a Bahia, Caetano Veloso e Gilberto Gil.
       Ocorreu no mesmo ano a II Feira de Música Popular do Nordeste, fundamental, inclusive, para a música pernambucana, palco de vários debates que discutiam os rumos da cultura. Conseguiu aglutinar os artistas que trabalhavam separadamente e, sobretudo, passou-se a compor mais. Inclusive pela ausência de registros, mais parece uma geração muito mais engajada do que produtora – só aparência. De todo modo, foi essa tradição de feiras e encontros que na geração seguinte, do início dos anos 70, conseguiu ainda mais fortificar as produções locais. A exemplo da I Feira Experimental de Música do Nordeste, realizada no dia 11 de novembro de 1972, no teatro de Nova Jerusalém, na qual os produtores, sem nenhuma intenção de faturar em cima do projeto, realizaram uma feira livre com entrada franca a fim de unir tudo e qualquer coisa que chegasse para subir aos palcos.
       Dessa vez, sem manifestos, a geração do desbunde pernambucano deixou um vasto legado que convivia em sintonia com a psicodelia pós-Woodstock e a geração beatnik - chegando a ser nomeada beat-psicodelia recifense. Dos tropicalistas, herdaram a necessidade de estarem antenados com o exterior, valorizando os ritmos locais. Música nordestina com linguagem rock'n'roll.
Hey Man, faixa do LP homônimo dos ex-Tamarineira Village, Ave Sangria (1972).

Produções da época. No sentido anti-horário: Satwa (1973) e Marconi Notaro no Sub Reino dos Metazoários  (1973), Paêbirú - Caminho da Montanha do Sol (1975) e Flaviola e o Bando do Sol (1976).

       Eram shows no Beco do Barato, no pátio de São Pedro, no Geraldão, Olinda, Fazenda Nova, no teatro Santa Isabel. O chamado udigrudi recifense, que tinha como guru Lula Côrtes e nomes como Marconi Notaro, Zé Ramalho, Tamarineira Village (depois Ave Sangria), O Phetus, Robertinho do Recife, Flaviola. O perfil dos artistas, as atuações, o som,  o alto nível de experimentalismo e psicodelia mistificaram os personagens que faziam parte dessa cena.  O desagrado por serem tachados como contracultura, refletido na falta de patrocínio, obrigava a emigração dos músicos para a gravação de um LP. Até porque tínhamos aqui a gravadora Rozemblit (que na época já não era tão bem sucedida), mas que, ligada ao tradicional, nunca percebeu que Pernambuco sempre teve vocação para vanguarda e que rock dava dinheiro. Só mais adiante, já no final desse processo musical, foi que Lula Côrtes e Zé Ramalho gravaram o LP Paêbirú - Caminho da Montanha do Sol (1976) utilizando o estúdio da Rozemblit, bancados pela produtora Abrakadabra.
       Esse cenário duvidoso, incentivado pela falta de investimentos, resultou na dispersão dos artistas. Foi uma fase de extrema riqueza experimental que acabou por desembocar num Recife "sem criatividade", por mais de uma década, quando se vê o nascimento do Manguebeat.

Trilha de Sumé, do LP Paêbirú (1975) de Lula Côrtes e Zé Ramalho.

TELES, José. Do frevo ao manguebeat. São Paulo: Ed. 34, 2000.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012


Quando foi 68? : Os anseios sociais em um mundo conturbado
Por Antônio Júlio Rebelo Neto e Simony César

O mundo durante o pós-guerra era marcado por incertezas. Havia a corrida armamentista entre as potências mundiais EUA e URSS, o colapso econômico nos países do chamado “Eixo”, Alemanha, Japão e Itália, as cidades europeias destruídas, culturas territoriais alteradas, entre tantos outros eventos obscuros.
Tudo “coroado” por uma guerra de ocupação. Onde os combates militares formais apenas se deram no início e final do conflito, predominando neste intervalo a opressão dos invasores, com os civis constituindo-se em uma grande massa de oprimidos fisicamente e mentalmente. Estimam-se em 40 milhões de mortos civis.
De fato, as pessoas buscavam modelos a seguir, que levassem a uma condição de vida mais digna e mais humana. Tratados foram criados entre as nações, ligas foram formadas, países unidos em busca de paz.
Assim, as guerras legitimaram o objetivo de se alcançar um Estado liberal, que almejasse a justiça e a democracia.
Realizou-se em 1954 a Conferência de Genebra, que objetivava restaurar a paz na Indochina e Coreia, após a derrota francesa no Vietnã. Vale ressaltar que a França recebia apoio financeiro e militar estadunidense, enquanto soviéticos e chineses apoiavam os vietnamitas. Assim, temporariamente o Vietnã seria dividido em norte (socialista) e sul (anticomunista) até a próxima eleição que seria em 1956.
Contudo, os Estados Unidos não assinaram o acordo de Genebra, invadindo posteriormente o Vietnã do Sul, impondo um golpe de estado ao governo de Bao Dai, colocando em seu lugar, Ngo Dinh Diem, comprometido com os norte-americanos.
Diem implantou uma ditadura militar, proclamou a independência do Vietnã do Sul e cancelou as eleições previstas pelo Acordo de Genebra, porque havia a convicção de que ela daria a vitória a Ho Chi Minh, chefe da nação vietnamita do norte.
Isto demonstrava o nível ético ao qual os Estados Unidos estava disposto a adotar para conseguir vencer a Guerra Fria contra a URSS e, consequentemente, contra o comunismo, sistema abominado na América do Norte, mas que ganhava força popular em países nacionalistas que lutavam por sua independência.
O conflito no Vietnã foi catastrófico. Mais ainda para os norte americanos, que viram sua imagem ruir perante o mundo civilizado e pelos próprios cidadãos estadunidenses. Pois, o conflito foi amplamente divulgado pela mídia, onde imagens de horrores eram transmitidas pela televisão o que causava repulsa na população. Além do fato de que com a guerra, eis que surge uma forma de combate que mais tarde se espalharia pela América: a guerrilha.
Enquanto o mundo assistia espantado a derrocada norte-americana, na França há manifestações populares crescentes. Manifestos estudantis, reinvindicações do proletariado e insurgências civis marcam a sociedade francesa na década de 60.
A maioria dos insurretos eram adeptos de ideias esquerdistas, comunistas ou anarquistas. Lutavam para verem mudar os valores pertencentes a uma antiga e decadente burguesia, cujo resgate de força se deu pelo governo de De Gaulle.
O operariado na França fazia greves, contestava seus patrões e exigia melhores condições de trabalho. Armavam “barricadas”, enfrentavam a polícia, cuja força o governo utilizava nas chamadas “blitz”.
Os intelectuais de esquerda lançavam livros e manifestos, conduziam seus discursos sobre a revolução. Conhecida como a revolução dentro da revolução, uma observação para que houvesse mudanças de comportamento entre os insatisfeitos do atual governo. Era preciso lutar. Assim, Régis Debray, Cohn-Bendit, Alan Geismar e Jacques Sauvageot se tornavam emblemáticos na contestação do capitalismo a todo custo e a exploração dos trabalhadores.
Era conhecida como a “Nova Esquerda” e pregava novas atitudes. Eles se diferenciavam dos movimentos esquerdistas anteriores, e adotaram uma definição de ativismo político mais ampla, comumente chamada de ativismo social. Temas como sexualidade, gênero, liberdade, raça e igualdade ganharam destaque para estes ativistas, não importando apenas o aspecto político-econômico nacional.
Nos países latino-americanos, também ocorriam mudanças. Em Cuba caía Fulgencio Batista, ante a guerrilha revolucionária de Fidel Castro. Este por sua vez implantava no país um governo socialista, que nacionalizou fazendas privadas, propriedades religiosas e propriedades estrangeiras. Na Venezuela, os “direitistas” traíram os guerrilheiros, ampliando o embate entre os pobres e os ricos. Na Bolívia, rangers treinados por instrutores norte-americanos lutaram contra os revolucionários de Che Guevara, culminando em sua morte. No Chile, Eduardo Frei Montalva, de orientação política cristã de direita, ganhava as eleições contra Salvador Allende, que era socialista, utilizando intervenção publicitária da CIA. Na antiga Tchecoslováquia o socialismo também sofria duras quedas, pela dissolução dentro do Partido Comunista, aliás, dissoluções estas amplamente espalhadas pelo mundo.
Esta quebra dentro do PC se dava muitas vezes por divergências ideológicas dos seus intelectuais fundadores. Uns de tendência mais pacifista, a exemplo do Chile de Allende, outros mais combatentes como a URSS, Cuba e China. O que dificultava a unidade global em torno do ideal marxista e leninista.
Agindo assim, os comunistas enfraqueceram-se em seus países, dando lugar aos capitalistas liberais, que com a ajuda do grande capital propagandista arrebatavam cada vez mais simpatizantes ao seu sistema.
Aqueles anos entre 1960 e 1970 era um prenúncio do que o mundo se tornaria o que é nos dias atuais. Os partidos políticos cada vez mais desamparados em ideologias, as pessoas mais informadas e independentes do Estado e o incessante caminhar humano em busca de reformas sociais (decadência econômica das antigas potências capitalistas, consciência ecológica, queda de ditaduras, etc.), que tragam mais satisfação coletiva.

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Quando foi 68?: A Política Em Meio À Ditadura

por Antônio Júlio Rebelo Neto e Simony César


O ano de 1968, no Brasil, foi marcado pelo endurecimento da ditadura no país. Sob o poder militar representado então pelo marechal Costa e Silva, a sociedade civil brasileira padecia ante os disparates governamentais. Entre eles, o AI-5 (Ato Institucional Número Cinco) garantia ao presidente da República Federativa do Brasil poderes tamanhos tal qual o fechamento do Congresso Nacional, marcando de vez o endurecimento do regime. De fato, o AI-5 institucionalizava a repressão e tortura aos oposicionistas do governo militar.
Assim, os partidos tidos como de “esquerda” eram os principais alvos dos militares. Isso porque os militantes esquerdistas eram quem combatiam o atual do governo. Com isso, surgiam grupos organizados, alinhados com a ideologia comunista, e que almejavam o fim da ditadura. Logo, estes grupos ganharam força frente à sociedade civil, o proletariado, artistas e os estudantes, todos, nesta época, ansiosos por mudanças no quadro político nacional.
 Neste contexto, a militância de esquerda ganhava força nos grêmios estudantis, buscando na juventude a formação de futuros combatentes. Os grêmios funcionavam como locais de reunião entre membros partidários da oposição, como PC do B, PCB e PCBR, juntos, obviamente, dos estudantes. Além dos partidos comunistas, havia ainda as organizações de cunho revolucionário, muitas vezes originados por dissidentes partidários de esquerda, como por exemplo, a Aliança Nacional Libertadora (ALN), a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), o Movimento Comunista Revolucionário (MCR), a Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (VAR-Palmares), entre outros. Algumas destas organizações de extrema esquerda possuíam a vantagem de contar entre os seus membros com antigos soldados do regime, que deserdaram do Exército Brasileiro para ir lutar ao lado dos comunistas.
Eram utilizadas diversas formas de combate, desde práticas violentas como assaltos a bancos, sequestros e atentados, até ações propagandistas como pichações, panfletagem e veiculação de jornais. Em consequência da constante vigilância ditatorial, as ações contrárias ao governo aconteciam de forma esporádica. Mais ainda, a divulgação de ideias oposicionistas através dos meios impressos, constantemente, se reduzia a jornais, cuja circulação predominava entre os membros dos partidos esquerdistas.
Isto porque, no Brasil da ditadura, o medo era um fator permanente na vida das pessoas. Gente desaparecia no calar da noite, o silêncio rondava as ruas, e a desconfiança marcava as relações sociais. Havia os infiltrados do governo, os delatores do sistema, que obrigavam os indivíduos a medirem sempre suas palavras. O controle social era caracterizado pela censura, havendo censores nos teatros, na literatura e, obviamente, nos jornais. Versos musicais eram excluídos ou adulterados, a mesma coisa para as falas de personagens em peças teatrais. Matérias eram lidas antes de serem publicadas, havendo corte caso assim desejasse os censores.
No entanto, muitos jornais continuaram a publicar notícias que informassem ao seu público a conjectura geral da Nação. A maioria deles eram jornais comunistas, mimeografados, muitas vezes produzidos em pequenos cômodos, de modo a se refugiar da perseguição dos ditadores. Alguns eram bem conhecidos, como Opinião, O Pasquim e Movimento. Contribuíram assim para o boom do jornalismo alternativo da chamada imprensa nanica e/ou combativa as pressões pelos censores dentro das redações, os jornais a serviço do governo, e a condição a que eram submetidos os jornalistas, que ficavam “atados”. Assim, estes jornais em tamanho de tabloides (variação do termo “imprensa nanica”) podiam ser basicamente de dois tipos: alguns predominantemente políticos e de outro lado, jornalistas cansados do discurso ideológico. Em geral pedagógicos e dogmáticos, o primeiro tipo tinha raízes nos ideais de valorização do nacional e do popular dos anos 50, ou no marxismo vulgarizado nos meios estudantis nos anos 60. O segundo tipo se inspirava nos movimentos de contracultura norte-americana, no orientalismo, anarquismo, existencialismo, era contra o autoritarismo e a moral da burguesia e aderia às drogas.
 Poderia se classificar o período de circulação dos principais jornais alternativos em quatro fases. A primeira foi quando o objetivo era revolucionar o país. Conseguinte, surgiu a fase da resistência ao poder, onde reformularam a linguagem e as críticas, quando aumentou sua perseguição por parte da censura. No final dos anos 70, com a abertura política, as redações dos jornais alternativos foram deixando a clandestinidade e ganhando o espaço público. Na fase final os jornais se voltavam aos movimentos populares de base.
Evidentemente, a imprensa alternativa obteve papel importante quanto à circulação de informações e ideias de natureza diversificadas, além de combater os desmandos de um governo autoritário. Como disse Kucinski, “a imprensa alternativa dos anos 70 era tudo isso ao mesmo tempo. Em contraste com a complacência da grande imprensa para com a ditadura militar, os jornais alternativos faziam a crítica sistemática do modelo econômico. Inclusive nos anos de seu aparente sucesso, durante o milagre econômico - de 1968 a 1973 -, destoando assim do discurso triunfalista do governo ecoado pela grande imprensa, construindo dessa forma todo um discurso alternativo”. (1998, p. 179)



Referência bibliográfica

KUCINSKI, Bernardo. A síndrome da antena parabólica. SãoPaulo: Fundação Perceu Abramo, 1998.

Quando foi 68?: Cinema, Música e Política

por Mário Augusto Rolim


MÚSICA:

 O ano de 1968 é tido, por merecimento, como o ápice dos movimentos de contracultura que se espalharam por várias partes do mundo entre o final da década de 1960 e o começo da década de 1970. Um bom meio de evidenciar isso é lembrar o número de músicas pop que, se não defendiam a revolta, pelo menos demonstravam uma percepção de que alguma coisa diferente estava acontecendo naqueles anos finais da década. Mesmo bandas e artistas que eram – e continuaram depois – apolíticas escreveram pelo menos alguma música relacionada à situação sociopolítica daquele tempo. Sim, os anos de maior engajamento dos jovens em movimentos contraculturais ou de protesto coincidiram com os anos de maior tendência ao protesto na música pop, mas, mesmo nessa época, protestar explicitamente através de músicas não era comum. Na verdade, esse tipo de comportamento é comum nas artes comerciais em geral, desde a música até a literatura e o cinema. Tal tipo de músicas era mais comum em artistas relacionados ao movimento de revitalização da folk music americana e artistas como Joan Baez, Bob Dylan (entre os anos de 1963 e 1965), Pete Seeger e Peter, Paul And Mary.
Posso começar com o Cream, um supergrupo de rock que em suas letras seguia as tradições do blues com uma influência de rock psicodélico, e preferia fazer covers de clássicos do blues a abordar temas sociais em suas músicas. Mas em 68 eles escreveram e lançaram, no álbum Wheels of Fire, uma canção chamada ‘Politician’, descrita na crítica do álbum na Allmusic como “um blues lento, cínico”. A letra critica o lado hipócrita e falso dos políticos, com um eu-lírico que “apóia a esquerda apesar de estar se inclinando para a direita”, que “não está lá quando há uma briga”, se declarando “um homem político que pratica o que prega” e que chama uma pessoa desconhecida (provavelmente uma mulher) para dentro do seu “grande carro preto” para “mostrar suas políticas”.
A banda californiana The Doors seguia caminho parecido ao Cream em termos de letras e de propensão a fazer covers de clássicos do blues, mas em 68 eles largaram sua postura passiva por um momento e lançaram no álbum Waiting For The Sun a canção ‘The Unknown Soldier’. Nela, Jim Morrison – vocalista e principal compositor da banda – aborda o modo como a mídia tratava a Guerra do Vietnã escrevendo “Café da manhã onde as notícias são lidas/Televisão alimentou as crianças/Não-nascidos vivendo, mortos-vivos/Bala atinge a cabeça com o capacete”, e também escreve “Faça uma cova para o soldado desconhecido/Aninhado na tumba de seu ombro”, terminando a música com uma encenação do fim da guerra. Ao tocar essa canção, a banda também costumava simular de um pelotão de fuzilamento, através de uma combinação de sons da bateria e guitarra e Morrison caindo no palco, como que fuzilado pela guitarra.
Outra banda de rock que seguia uma vertente semelhante às duas anteriores na composição de suas músicas eram os Rolling Stones. Em 68, Mick Jagger compôs ‘Street Fighting Man’ para o álbum Beggars Banquet. A inspiração para escrevê-la após ir a uma manifestação anti-guerra em frente à embaixada americana em Londres naquele ano, na qual policiais investiram contra uma multidão de aproximadamente vinte e cinco mil jovens. Na letra, Jagger toma partido dos protestantes/”revolucionários” e retrata muito bem o ambiente daquele momento, dizendo que “Em todo o lugar eu escuto o som de pés marchando/Porque o verão chegou e a hora é certa para lutar nas ruas” e que “Acho que o momento é certo para uma revolução palaciana”, apesar de lamentar que “Mas o que um pobre garoto pode fazer/A não ser cantar em uma banda de rock ‘n roll/Porque na sonolenta cidade de Londres não há lugar para um lutador de rua”. Os Stones pretendiam lançá-la como single, com uma foto de policiais batendo em manifestantes de Los Angeles, mas a distribuidora rapidamente proibiu sua circulação. O single foi também banido em várias rádios americanas, que alegavam que ele era “subversivo” e podia “incitar violência”. Jagger respondeu dizendo que “É claro que é subversivo! É estúpido pensar que se pode começar uma revolução com um disco. Quem dera se pudesse!”.
Seguindo a linha de bandas de rock que tinham letras (e canções) influenciadas primariamente por blues e rock psicodélico, temos a Jimi Hendrix Experience. Para seu álbum de 1968, Electric Ladyland, Hendrix compôs ‘House Burning Down’ (segundo ele porque não entendia o porquê de irmãos – no sentido mais amplo do termo – queimarem as casas uns dos outros) uma referência aos protestos anti-racismo do verão de 68, em que várias casas e estabelecimentos foram incinerados. Também tem conotação sociopolítica a canção ‘1983... A Merman I Should Turn To Be’, apesar dela estar um pouco escondida por trás de metáforas e uma das letras mais poéticas de toda a carreira de Hendrix. Nela, o eu-lírico fala sobre querer renascer sob a forma de um sereio junto com seu amor, fugindo da guerra e seu “barulho mortal”. Ele também lamenta que “nossos amigos não podem estar conosco hoje”, numa referência aos assassinatos de Martin Luther King Jr. e Robert Kennedy, separados por apenas dois meses. Hendrix também faz alusão ao bombardeio – através de mísseis, bombas e napalm – ao Vietnã feito pelos Estados Unidos, com “Coisas gigantes com formato de lápis e batom/Continuam a chover e causar dor gritante”. O título é uma referência à seção 1983 – que fala de ação civil à deprivação de direitos - do Civil Rights Act de 1871, feito para proteger - legalmente - os negros de ataques racistas, o que extinguiu a Klu Klux Klan por décadas.
Pode-se terminar mencionando justamente os Beatles, a maior banda de rock da história, que em seu Álbum Branco de 1968 uma música chamada ‘Revolution 1’ e outra chamada ‘Revolution 9’. Os Beatles até então só tinham abordado temas sociopolíticos em suas músicas (a maior parte estava bem longe disso) em ‘Taxman’, uma crítica irônica aos impostos pagos pelos britânicos naquela época. ‘Revolution 1’ é uma canção sobre as revoluções (ou tentativas de revolução) que ocorreram no mundo no primeiro semestre de 1968, principalmente. Em vez de enaltecer tais revoluções – como poderia ter acontecido, já que os Beatles eram contra a Guerra do Vietnã e estavam entre os principais expoentes da cultura hippie na música -, a letra de John Lennon questiona o planejamento e a abordagem dos revolucionários, ao mesmo tempo em que mostra o caráter dúbio do seu compositor, que não sabe se quer se juntar aos revolucionários ou não. Essa ‘crítica da crítica à sociedade’ não era fácil de ser encontrada nos trabalhos artísticos de bandas anti-stablishment da época, já que os hippies como um todo pareciam imbuídos de um estado de crescente otimismo de 1967 a 1970. John Lennon chegou a ser criticado por radicais de esquerda, que alegaram que a canção era uma traição ou uma demonstração burguesa de medo, e até perseguido por grupos que seguiam ou eram favoráveis a Mao, Trotski e Lênin. Já ‘Revolution 9’ é completamente diferente da sua “companheira”, e também completamente diferente de qualquer outra música dos Beatles ou de qualquer banda de música pop da história, se constituindo de uma colagem vanguardista de sons e efeitos sonoros dos mais variados, pontuados por vocais que na maior parte das vezes são quase incompreensíveis, chegando a cerca de oito minutos. Inicialmente, ‘Revolution 1’ e ‘Revolution 9’ seriam uma música só de aproximadamente dez minutos, com a primeira dando lugar à segunda, mas Lennon decidiu separá-las e fazer uma seção de colagens mais elaborada (e complexa) do que originalmente previsto. A inclusão dela no álbum chocou não só o público, que anos atrás podiam ver os Beatles vestidos de jovens comportados tocando músicas até inocentes como ‘She Loves You’ e ‘I Wanna Hold Your Hand’, mas também os próprios membros da banda e profissionais que trabalhavam com ela (Paul McCartney era contra a inclusão dela, que acabou sendo a canção de estúdio de maior duração dos Beatles, no álbum; George Harrison ajudou na edição e contribuiu gravando algumas partes vocais). É praticamente impossível se tirar uma mensagem da “letra” de ‘Revolution 9’, mas não estaria John Lennon fazendo também uma excêntrica espécie de revolução com sua aventura pela música concreta? Muitos críticos chegaram a afirmar que a inclusão de ‘Revolution 9’ no Álbum Branco era o fator essencial que o tornava mais que um álbum de música pop. Um álbum-conceito, alguns diriam, outros falariam de um suposto gênero musical chamado ‘art rock’. Não importa. John Lennon pode não ter tido sucesso em sua revolução pessoal, mas ninguém pode falar que ele não chocou o mundo, ou que ele não deixou uma mensagem.
Essas duas canções são um bom exemplo para diferençar os variados tipos de ações políticas de protesto ou de demonstrações de consciência política que eram/são feitas através da arte, mais precisamente a música, naquele momento da história. De um lado, as músicas de crítica social explícita, ainda que essa crítica venha em forma de metáfora ou outras figuras de linguagem. Como exemplo eu posso citar ‘Blowin’ In The Wind’ e ‘The Times They Are A-Changin’’, de Bob Dylan, ou ‘Pra Dizer Que Não Falei das Flores’, de Geraldo Vandré. Em outra vertente eu colocaria os trabalhos musicais que procuravam não fazer uma crítica sociopolítica explícita através das letras, mas que acabavam por ter um impacto mesmo assim. Claro, sempre houveram e haverão artistas que parecem ser até despretensiosos socialmente e preferem se manter longe de qualquer discurso político, mas que conseguem chocar mesmo assim. Esses sempre estiveram conscientes do seu papel no meio artístico e da sua capacidade de crítica ao meio cultural e social em que habitam, como Caetano Veloso, The Velvet Underground e Miles Davis.
Não vou longe o suficiente para dizer que todo ato artístico é em si também um ato político, mas não se podem negar certas coisas. A mera existência de uma banda como o Velvet Underground, por exemplo, com seu som muitas vezes estranho e distorcido e suas letras falando sobre consumo de drogas e perversão de diferentes tipos já é em si uma grande afronta ao sistema político. Quanto à importância desses diferentes tipos de discursos políticos, Caetano Veloso menciona em sua autobiografia ‘Verdade Tropical’ que Geraldo Vandré chegou a procurar o empresário de Caetano e Gil para pedir a eles que não entrassem no páreo (nas disputas por festivais ou mesmo por espaço nas rádios e na mídia), alegando que “o Brasil necessitava daquilo que ele, Vandré, estava fazendo (ou seja: canções “conscientizadoras das massas”) e que, como o mercado não comportava mais de um nome forte de cada vez, nós todos deveríamos, para o bem do país e do povo, jogar todas as cartas nele”. Vandré já era o cantor de protesto por excelência no país e além de auto-confiança e desejo de “conscientizar as massas”, também está por trás desse pedido uma noção de que o tipo de música que ele fazia era mais importante para o país do que a Tropicália. Também havia em Vandré uma cobrança para que Caetano, Gil e tantos outros tornassem sua crítica política mais veemente. É impossível determinar qual dessas duas vertentes efetivamente causa mais impacto, mas o fato é que a Tropicália, com sua desenvoltura, maneira performática e até escandalosa de se apresentar e mistura de diferentes gêneros musicais com a própria poesia, até, chocou tanto adeptos da bossa nova quanto do rock (a principal dicotomia musical da época). A prova de que a Tropicália também era uma ameaça à ditadura veio quando Caetano Veloso e Gilberto Gil foram presos após uma apresentação na TV em tempos de Natal na qual Caetano cantava ‘Noite Feliz’ apontando uma arma para a própria cabeça (Caetano quase pediu para ser preso, convenhamos). Na prisão, oficiais chegaram a dizer a Caetano que achavam a música que eles estavam fazendo bem mais ultrajante e perigosa (não nessas palavras) que músicas de protesto mais claras. Depois de algum tempo, a cabeça de Caetano foi raspada na prisão. Nesses tempos, até ter cabelo grande podia ser um ato político.



CINEMA:

            Entre as formas de arte (ou de pensamento e expressão) que entraram em ebulição nos anos 60, mais precisamente no final da década, mais precisamente ainda em 1968, o cinema foi certamente uma das mais afetadas pelo espírito da época e uma das que melhor souberam transmiti-lo. Mas não poderia ser diferente. Provavelmente é unânime que o cinema é a arte do século XX, e aquela que mais se firmou como uma das mais populares e amadas do mundo e a que mais povoou imaginário popular.
            Num cenário em que até estudantes que haviam cogitado coisa parecida se mobilizaram para enfrentar forças armadas do governo, e bandas que nunca haviam sequer mencionado assuntos políticos em suas músicas demonstraram atenção ou interesse ao cenário sociopolítico da época, provavelmente o cinema não teve um impacto tão grande nas questões políticas do fim da década de 60. Talvez tenha sido assim pela demora na produção e distribuição de um filme ser bem maior que de um disco, por exemplo, pela maior facilidade em censurar ou proibir a circulação de filmes, ou talvez pela própria tradição do cinema de não dar tanta importância aos problemas sociopolíticos de sua época. Mas analisar os filmes dos anos 60 assim é ver só um dos lados da moeda. Isso porque o cinema tem uma política própria, na qual as críticas (ainda que não estejam explícitas) estão mais voltadas para o mercado e o modo como o cinema é tratado do que com o cenário social. No caso, a “politique des auteurs” (política dos autores), termo usado pela primeira vez por François Truffaut em 1954.
            Essa política é um desenvolvimento de um ensaio escrito por Alexandre Astruc em 1948, chamado ‘Nascimento de uma nova vanguarda: a câmera-caneta’, no qual ele previa que o diretor/autor escreverá como um escritor escreve com sua caneta. A teoria foi retomada na Cahiers Du Cinéma por críticos (e futuramente cineastas) como André Bazin, Jean-Luc Godard, François Truffaut e Eric Rohmer. Na Cahiers havia uma defesa dessa nova forma de se analisar filmes na qual se via o diretor como autor máximo da obra, o estabelecimento do cinema como uma verdadeira e respeitável forma de arte através do desenvolvimento de uma estética própria, dando mais bem mais importância e destaque aos diretores vistos como autores, como Bresson, Renoir, Hitchcock, Welles, Kurosawa, Bergman, só para citar alguns. Ao tomar o partido de filmes mais pessoais e artísticos, essa política também rejeitava os filmes comerciais, pensados para fazer os estúdios lucrarem enquanto agradavam o grande público. A política foi adaptada para o inglês como “auteur theory” por Andrew Sarris, um dos mais importantes críticos de cinema dos Estados Unidos, em 62. Obviamente, essa política recebeu várias críticas, até mesmo de críticos respeitados como a americana Pauline Kael, mas é inegável que esse novo modo de analisar filmes influenciou profundamente tanto críticos e espectadores como diretores, e ainda é importante para a história do cinema e assunto de calorosos debates sobre a sétima arte.
            O sucesso da política dos autores foi efetivado e deu frutos com o sucesso da chamada Nouvelle Vague, vanguarda do cinema francês formada em grande parte por críticos da Cahiers Du Cinéma como Truffaut, Godard, Rohmer, Chabrol e Rivette, tendo se iniciado no fim da década de 50 e atingindo seu potencial máximo na década de 60. Os filmes da Nouvelle Vague eram de baixo orçamento e principalmente por causa disso tinham deficiências técnicas evidentes, mas eram autorais e dotados de uma aura de juventude como nenhum filme de Hollywood, e constantemente desafiavam os clichês de gêneros e os moldes seguros dos filmes comerciais, em questões que iam desde estruturas narrativas até o emprego de atores não-profissionais em papéis importantes. As influências fílmicas que formaram a estética dos diretores da Nouvelle Vague eram várias, indo desde os filmes noir americanos até neorrealistas italianos e de diretores-autores do cinema francês como Jean Renoir.
            Menciono a Nouvelle Vague primeiro porque foi ela que, sem dúvida, mais influenciou e impulsionou a criação das vanguardas do cinema que surgiriam na década de 60. Ecos da Nouvelle Vague foram ouvidos em várias partes do globo. Nos Estados Unidos, filmes como Bonnie & Clyde (1967) e Sem Destino (1969) evidenciavam o nascimento da chamada Nova Hollywood, dotada de jovens diretores como Scorsese, Coppola, de Palma, Friedkin, Peckinpah, Bogdanovich, Malick, Spielberg, Altman e Ashby, entre outros. Esses cineastas lutavam contra a ideologia repressora, antiquada, e voltada para o mercado dos grandes (e decadentes) estúdios enquanto tentavam dominar o sistema de estúdios e assim conquistar mais autonomia e melhor financiamento, produção e distribuição de seus filmes, muito mais ousados e pessoais que os da Hollywood clássica.
Na antiga Tchecoslováquia, pouco tempo antes dela se tornar um caldeirão com a Primavera de Praga, cineastas como Milos Forman, Jan Nemec, Jíri Menzel, Ján Kadár e Vera Chytilová faziam filmes que desafiavam e criticavam os valores e as condições sociopolíticas de sua sociedade, ainda que não explicitamente. Muitos deles foram atacados ou proibidos pela censura governamental, e Forman e Nemec tiveram que deixar o país.
            Enfrentando situação semelhante (vivendo sob um regime autoritário e desigual que costumava censurar filmes e outras formas de arte) estavam os cineastas do Cinema Novo no Brasil, como Glauber Rocha, Nelson Pereira dos Santos e Joaquim Pereira de Andrade, sendo parte fundamental do que foi chamado de Terceiro Cinema, ou seja, um cinema do Terceiro Mundo. Ângela Prysthon abordou esse cinema no artigo ‘1968: Imagens de Uma Utopia’, dizendo:

“De acordo com a idéia de transformação da sociedade pela conscientização trazida à tona pelos ideais terceiro-mundistas, os principais temas dos filmes do terceiro cinema vão ser a pobreza, a opressão social, a violência urbana das metrópoles inchadas e miseráveis, a recuperação da história dos povos colonizados e oprimidos e a constituição das nações. Os praticantes do terceiro cinema recusam adotar um modelo único de estratégias formais ou transformar-se em um “estilo”, embora isto não tenha significado que eles estivessem alheios ao cinema mundial e à idéia de um modelo, se aberto, ao menos em linhas gerais unificador.
Ou seja, além de buscar os temas nas esferas marginalizadas da sociedade, estes cineastas demonstram laços estilísticos estreitos com o neo-realismo italiano e a Nouvelle Vague francesa. Tais influências vão ser sentidas em dois níveis principais: o neo-realismo italiano serve como proposta similar de abordagem formal que pode ser aproveitada por sua simplicidade, baixo custo e linguagem direta; e a Nouvelle Vague enquanto afirmação do “cinema de autor”, o que possibilita a consolidação das linguagens individuais dos principais expoentes do movimento. A partir desses elementos, emerge um conjunto de procedimentos mais ou menos comuns à maioria dos diretores engajados na denúncia social.” (PRYSTHON, p. 16)

            Certamente os diretores do Cinema Novo eram, entre os de todas as vanguardas citadas, os mais engajados socialmente, e o que mais chegaram perto de um fazer político convencional. Também é digna de nota a chamada ‘Estética da Fome’ que permeava os filmes dessa vanguarda, talvez o maior ponto de influência do neorrealismo italiano. Os filmes do Cinema Novo, além de mostrar pessoas pobres, eram evidentemente “pobres” também, sob vários aspectos. As imagens eram duras e até sujas, sem o polimento visual e o glamour que aparece até na direção de fotografia dos filmes de Hollywood; o som geralmente não era captado diretamente, o que era mais barato, e as trilhas sonoras não tinham pompa ou requinte, geralmente sendo constituídas de músicas típicas da região mostrada, ou de compositores brasileiros como Villa-Lobos; até a montagem não parecia tão clara, organizada e imperceptível como na estética hollywoodiana. Todos esses fatores podem ser vistos como defeitos, mas o Cinema Novo parecia ostentá-los com orgulho, até, e como uma maneira própria de demonstrar autonomia.
            Uma parte considerável desses cineastas, por uma variedade de motivos, não alcançou o sucesso almejado e teve apenas uns poucos e bons anos, com pouquíssimos nomes se mantendo em bom nível e chegando a fazer filmes de qualidade por décadas, como Malick, Scorsese, Forman, Rohmer, Truffaut, Godard, Altman e Spielberg. Numa década tão turbulenta, é até normal que tenham havido algumas “baixas”. Mas o fato é que os cineastas dos anos 60, cada um à sua maneira, faziam política filmando desde as condições precárias dos trabalhadores do sertão nordestino até as viagens (tanto as “psicodélicas” quantos as por estradas) de motoqueiros hippies. E o cinema nunca mais foi o mesmo depois disso.


            É impossível falar do cinema dos anos 60 sem ao menos esboçar uma análise mais geral do contexto, separando tudo por grupos distintos, mas também é impossível fazê-lo sem destacar alguns filmes em particular, ainda que brevemente:

- Antes da Revolução (1964), de Bernardo Bertolucci: ao contrário do que o título possa sugerir, essa obra de Bertolucci (então com 22 anos) demonstra como poucas a frustração da juventude em relação à sua própria incapacidade de alcançar seus sonhos – tanto relacionados ao amor impossível quanto a revoluções socialistas -, por causa das amarras da ideologia burguesa. A mesma geração que abraçaria e tentaria uma revolução alguns anos depois.
- Terra em transe (1967), de Glauber Rocha: o filme de Glauber Rocha se passa em um país latino-americano fictício chamado El Dorado, claramente inspirado no Brasil, povoado por um povo alienado e sem esperança e dominado por poderosos ricos e corruptos. Neste filme, talvez a maior crítica social de Glauber Rocha em filme, ele não poupa ninguém: o clero, o populismo, os políticos de direita, os esquerdistas revolucionários, os jornais... todos saem feridos. ‘Terra em Transe’ traz ainda uma reflexão (bastante pessoal) sobre o papel político do artista.
-Bonnie & Clyde (1967), de Arthur Penn: este filme abriu as portas para a Nova Hollywood, aproveitando a maior abertura para temas polêmicos por causa do fim do chamado Código de Produção para chocar e maravilhar espectadores e críticos. A forma quase romântica com que os foras-da-lei do título são tratados, a estilização da violência e o realismo brutal chocaram o público, ainda acostumado com os melodramas de Hollywood.
-Se... (1968), de Lindsay Anderson: Se... é provavelmente o mais emblemático filme de 1968, demonstrando o fervor revolucionário da juventude como ninguém. Este filme chocou o público com cenas de sexo explícito e anárquicos estudantes agindo como guerrilheiros e se revoltando contra sua própria escola, atacando seu diretor e outras figuras de opressão.
-2001: Uma Odisséia no Espaço (1968), de Stanley Kubrick: impossível não falar de filmes de 1968 ou da década de 1960 e não falar de 2001, filme que essa semana revigorou sua aclamação como um dos cinco melhores da história através da respeitada votação feita pela revista Sight And Sound. Kubrick desafiou o intelecto até dos mais respeitados críticos e cineastas, causando admiração e incredulidade com uma obra-prima que quebraria várias barreiras relacionadas ao que se podia fazer em um filme até se fosse lançada neste ano. Até as declarações de Kubrick a respeito do filme na época, falando de como não falaria do significado da obra porque acreditava que ela era uma “experiência não-verbal”, são lembradas até hoje.
-Blow-Up (1966), de Michelangelo Antonioni: com este filme (talvez seu mais conhecido até hoje), Antonioni fez o retrato da alienação e inquietação de uma geração, através de situações estranhas em que a realidade é questionada e quebra de barreiras (a nudez e sexualidade aberta do filme foram bastante polêmicas na época). Também é digna de nota a cena em que a banda inglesa de rock The Yardbirds toca uma música, sendo esta uma das primeiras aproximações entre rock e “cinema de arte”.
-A Chinesa (1967), de Jean-Luc Godard: Godard continuava a desafiar convenções narrativas e limitações relacionadas a gênero em seus filmes, mas obras como essa e outras dos anos anteriores (65 e 66) serviram de preparação para uma fase explicitamente política de Godard, em contraste com os filmes mais “alienados” do início de sua carreira. A Chinesa mostra uma nova geração de jovens burgueses determinados a aprender com e discutir as teorias socialistas de Mao, Lênin e Marx, ainda que sem muito comprometimento. Essa geração atingiria seu apogeu nos eventos de Maio de 68, dos quais Godard participou forçando (junto com outros cineastas, com o Truffaut) o Festival de Cannes a ser cancelado como forma de apoio aos estudantes e revoltosos em geral.
-Dr. Fantástico ou Como Aprendi A Parar de Me Preocupar E Amar A Bomba (1964), de Stanley Kubrick: acostumado a causar polêmica com seus filmes desde Lolita em 62, Kubrick continuou essa tradição com Dr. Fantástico, seu próximo filme. Ao perceber a situação bizarra que tinha em mãos, Kubrick transformou o que era antes um filme sério baseado em um livro sério numa sátira política de humor negro. Com essa comédia hilária, o diretor evidenciou o apocalipse nuclear evidente, o caráter surreal da guerra e a loucura dos que a administram.
-A Viagem (1967), de Roger Corman: A Viagem não está citado aqui por sua qualidade (em vários momentos ele chega a parecer bizarro, ainda que sem querer), mas por evidenciar a situação dos jovens americanos da época. O roteiro (autobiográfico) escrito por Jack Nicholson mostra um homem em busca da cura para suas desilusões amorosas através de viagens psicodélicas de LSD. O filme foi feito por um hippie e protagonizado por hippies (Dennis Hopper e Peter Fonda, que mais tarde estrelariam em Sem Destino), o que por si só já é estranho, mas o fato de ter sido feito mostra que seu público-alvo (os próprios hippies) já eram presença significativa entre os jovens americanos naquele ano.
-O Bandido da Luz Vermelha (1968), de Rogério Sganzerla: talvez este filme seja o maior exemplo de uma vertente do Cinema Novo surgida no Brasil, chamada de Cinema Marginal. Em vez de criticar a situação sociopolítica da sociedade através de ficções que mais pareciam realidade e de um compromisso ético em relação ao público, se distanciando do engajamento político. N’O Bandido da Luz Vermelha, Sganzerla se aproveitou dos mais diversos gêneros do cinema num processo antropofágico digno de Oswald de Andrade, satirizando a tudo e a todos com humor, fantasia, violência e amoralidade.

Quando foi 68?: As contribuições de Sartre e Beauvoir para a cultura ocidental

por Thiago Moreira
Graduando em Comunicação Social/Jornalismo

Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir
Que o ano de 1968 é considerado um dos mais influentes para a cultura ocidental mundial, disso não há dúvida. A efervescência daquela época, aliada às constantes modificações culturais no cinema, na música, na literatura, e na filosofia, serviu de alicerce primordial para os diversos movimentos sociais realizados naquele ano. A luta pelos diretos civis dos negros, a explosão do movimento de cunho feminista, influenciado pelas ideias da francesa Simone de Beauvoir; manifestações ecológicas e as lutas para emancipação do domínio colonial em diversos países; o surgimento do movimento “hippie” e do “flower power”, como respostas à repressão e aos conflitos armados que aconteciam na época, como a guerra do Vietnã. É certo que Paris viveu todo o ápice dessa efervescência, e que a filosofia teve um papel fundamental na organização e na condução destes movimentos. Como a própria Simone de Beauvoir, que influenciou fortemente os movimentos feministas ocorridos na capital francesa. Mas também não se pode menosprezar as outras manifestações ocorridas ao redor do mundo, que também tiveram grande importância para a história contemporânea mundial, como o próprio movimento “hippie”.

Assim como o cinema, a música e a literatura, a filosofia também exerceu papel fundamental para o degringolar de diversos movimentos de cunho social espalhados pelo mundo, em especial na França, o ápice de todo este “fervor”. Tendo como principais expoentes o filósofo existencialista Jean-Paul Charles Aymard Sartre, e sua companheira Simone de Beauvoir, assumidamente feminista, a filosofia no século XX seria radicalmente transformada a partir dos seus preceitos e obras.

"Crítica da Razão Dialética", de Jean-Paul Sartre.
É notório o teor político nas obras publicadas por Sartre. Aliando seus preceitos a sua visão política do cenário em que se encontrava, Sartre pode ser definido como o melhor exemplo que chamamos de o intelectual engajado. Obras como os cultuados “O ser e o nada” e “A crítica da razão dialética”, publicados na década de 1960, mostram, por exemplo, a defesa ferrenha do francês dos valores humanos presentes na corrente marxista, apresentando uma versão alterada do existencialismo, que ele julgava ser um agente apaziguador, resolvendo as aparentes contradições entre os dois movimentos filosóficos. Podemos afirmar que o conceito de liberdade para Sartre - o filósofo defendia que o ser humano é livre responsável por tudo aquilo que está à sua volta - pode ser considerado um importante catalisador para a geração de tantos movimentos de cunho social espalhados pelo território francês, como o movimento estudantil na já citada década de 1960. Segundo o próprio Sartre, as nossas escolhas são direcionadas por tudo aquilo que nos aparenta ser o bem, especificamente falando, por um envolvimento naquilo que acreditamos ser uma causa nobre, e assim adquirindo a consciência de nós mesmos. Em outras palavras, pensar a problemática da liberdade implica em refletir sobre a própria condição humana de um ser que vive em comunidade, pois isto transpassa a própria fundamentação do coletivo, uma vez que o conceito de coletividade implica em homens compartilhando o mesmo espaço, das mesmas crenças, afazeres e, possivelmente, os mesmos objetivos de vida (DANELON, 2002).

Ainda segundo DANELON (2002), o pensamento existencialista de Sartre não somente ficou preso ao cenário europeu, vindo a exercer grande influência em terras brasileiras. O movimento Tropicalista absorveu muito da corrente existencialista, bem como os ideais de engajamento político, liberdade, dentre outros. Paralelamente, várias peças de autoria do filósofo francês foram montadas e encenadas aqui no Brasil.

Embora a literatura de Sartre tenha obtido grande destaque entre os artistas brasileiros, não se pode afirmar o mesmo de sua filosofia existencialista. A filosofia acabou por se tornar mais conhecida pelas suas frases de efeito (“o inferno são os outros”), do que a leitura e pesquisa rigorosa de suas obras. Este é um fato que corrobora, por exemplo, o fato de duas das principais obras do filósofo, “O Ser e o Nada” e “Crítica da Razão Dialética” não serem tão conhecidas e difundadas aqui no Brasil (o texto de “O Ser e o Nada”, por exemplo, só veio ser traduzido e publicado em terras brasileiras no ano de 1997, enquanto que na França, o texto original data de 1943). Tal demora pode ser apontada como um dos principais fatores na formação de pesquisadores e possíveis divulgadores do pensamento sartreano. Isto nos leva a dizer que o fascínio exercido pelo texto de Sartre se deve mais pelo que é dito e explanado pelos pesquisadores, do que uma leitura rigorosa e detalhada de suas obras.

"O Segundo Sexo", de Simone de Beauvoir.
Seguindo uma linha de pensamento análoga, a francesa Simone Lucie-Ernestine-Marie Bertrand de Beauvoir também adotou e moldou os preceitos de liberdade do ser humano em seus trabalhos, porém abordando uma problemática diferente: a opressão à mulher, e a supressão de seus principais direitos. Quantos de vocês, em determinado momento da sua vida não se deparou com uma fotografia representando um dos diversos movimentos de cunho feminista ao redor do mundo? Acredito que a mais célebre delas é a queima de diversos sutiãs em plena praça pública. Muitos estudiosos afirmam que a obra de Beauvoir - em especial a obra “O Segundo Sexo” (1949), que se trata de uma profunda análise sobre o papel feminino na sociedade contemporânea - teve contribuição significativa para diversos movimentos e manifestações de cunho feminista ao redor do mundo.

Assim como Jean-Paul Sartre, Beauvoir também partilhou da filosofia existencialista, aceitando o preceito de seu companheiro que “a existência precede a essência”, sendo assim, “não se nasce uma mulher, mas sim se torna uma”. Tal análise é concentrada na construção social da mulher como “o outro”, identificado pela francesa como um item fundamental para a opressão da mulher. Beauvoir argumentava que “as mulheres teriam sido consideradas, ao longo da história, como anormais e transviadas, e sustenta que até mesmo Mary Wollstonecraft (escritora britânica) considerava os homens como o ideal ao qual as mulheres deviam aspirar, para o feminismo seguir adiante, segundo ela, esta atitude deveria ser abandonada.

Muito do que Beauvoir pregou nas suas obras acabou sendo absorvido pelo movimento feminista. Por sua vez, movimentos desta natureza se relacionam com diversos outros movimentos sociais, na medida em que as questões ligadas à condição da mulher acabam por se interligar tanto com questões de opressão, como questões de classe, raça e preferência sexual. Em diversas épocas, esse tipo de abertura é inexistente, principalmente por existir uma necessidade de auto-afirmação das mulheres enquanto grupo organizado e portador de autonomia. Porém, com as gerações seguintes, novas condições são impostas aos movimentos sociais, o que tende a abrir novas possibilidades de organização e solidariedade entre os movimentos de diferentes objetivos. Sobreposições de opressões como, por exemplo, a mulher negra, a mulher lésbica e a mulher pobre incentivam não só as frentes específicas dentro do feminismo, mas também o coloca ao lado de outros movimentos que se colocam igualmente contra qualquer outro tipo de discriminação.

Um detalhe interessante observado por GALSTER (2003) mostra que o movimento feminista na França, baseado nos preceitos da obra “O Segundo Sexo” continua forte, gerando diversos debates e colóquios, sejam eles de natureza científica ou política.

BIBLIOGRAFIA


BEAUVOIR, Simone de. O segundo sexo. São Paulo: Nova Fronteira, 2009.

DANELON, Márcio. O conceito sartreano de liberdade: implicações éticas. Revista Urutágua, Maringá, v.1, n. 4, 2002. Disponível em <http://www.urutagua.uem.br//04fil_danelon.htm>. Acesso em 03 ago. 2012;

GALSTER, Ingrid. Cinquenta anos depois de O segundo sexo, a quantas anda o feminismo na França?: uma entrevista com Michelle Perrot. Rev. Estud. Fem.,  Florianópolis,  v. 11,  n. 2, Dec.  2003. Disponível em <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-026X2003000200010&lng=en&nrm=iso>. Acesso em  06  ago.  2012.