quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Luiz Gonzaga e a construção da imagem do povo nordestino


                                                                                                                         Igor Nóbrega

Este ano, o Nordeste comemora o centenário de uma das figuras mais representativas da região: Luiz Gonzaga.  O rei do baião, um dos títulos que recebeu ao longo de sua carreira, continua a ser muito exaltado mesmo depois de 23 anos de sua morte. Não é para menos. A contribuição cultural de Gonzagão define, até hoje, a imagem do homem nordestino e da própria região em si. Dentre os vários estilos musicais e expressões culturais que existem no Nordeste, a música de Gonzaga conseguiu difundir um conjunto de elementos imagéticos que, de certa forma, sintetizam a ideia de “nordestinidade”.

O sucesso do grande ícone da música regional, nascido em Exu, sertão de Pernambuco, veio nas décadas de 1940 e 1950 através do rádio, principal meio de comunicação de massa da época. Foi por intermédio das grandes emissoras radiofônicas do sudeste que Gonzaga, vestido com uma indumentária típica que reunia a roupa do vaqueiro nordestino com o chapéu usado pelos cangaceiros, criou a “música nordestina”, abordando em suas canções o migrante nordestino e a sua constante saudade da terra natal. Dono de uma nítida visão comercial de sua carreira, Gonzaga obteve grande êxito na indústria de entretenimento nacional e conseguiu, com sua música, criar um imaginário comum que unificou as diversas manifestações da região sob uma mesma identidade cultural.

Sua música e imagem, porém, acabaram endossando a ideia de um Nordeste tradicional e atrasado em detrimento do “sul” moderno e industrial.  É importante resgatar que foi através da crise da economia açucareira que começa a ser elaborado um discurso nordestino unitário, baseado no saudosismo que busca relembrar as glórias do passado em contraposição à ameaça “sulista” modernizadora. Além disso, outro aspecto importante na construção da ideia de Nordeste como região é a questão das secas que assolam a área. O ideário do Nordeste foi construído como produto imagético-discursivo relacionado às secas, colocadas como o problema mais importante da região.

Os clichês que colaboraram para a construção da imagem do Nordeste foram perpetrados também pelos próprios habitantes da região, como podemos perceber nas obras dos romancistas da década de 30. Em post anterior sobre o movimento armorial, Gabriella Autran fala que o sertanejo era representado por esses escritores como sofredor passivo da seca, construindo significado através de referências ao ambiente hostil do sertão, onde o homem sofre com as mazelas da seca. O movimento regionalista elegeu o sertenejo, caracterizado como rude e embrutecido pela natureza, capaz de enfrentar todo tipo de dificuldade e de sobreviver a elas, como a figura antagônica ao Brasil moderno, cafeeiro e industrial que nascia no Sul. Esse seria o homem capaz de recuperar a potência e o poderio deste saudoso lugar.

Aliás, a saudade é temática constante do cancioneiro. Albuquerque Júnior, em “A invenção do Nordeste e outras artes”, defende que “suas músicas operam com a dicotomia entre o espaço do sertão e o das cidades. O sertão é o lugar de pureza, do verdadeiramente brasileiro, onde os meninos ainda brincam de roda, os homens soltam balões, onde ainda existem as festas tradicionais de São João”. É como um lugar místico, preso ao tempo cíclico da natureza, “é um espaço que, embora informado das transformações históricas e sociais ocorrendo no país, recusa estas mudanças” (Albuquerque Júnior, 2001).

As canções tem uma construção narrativa onde as ações humanas são fortemente marcadas por sua relação com a natureza. Como explica Felipe Trotta (2009), “a temporalidade rural opõe-se à velocidade das cidades, onde pessoas, automóveis, notícias e emoções circulam apressadamente por seus espaços físicos apertados e onde é proibido perder tempo ‘olhando pro céu’“. Um exemplo da expressão musical dessa saudade é o início da música ‘No meu pé de serra’ (Luiz Gonzaga/ Humberto Teixeira), lançada em 1946:

“Lá no meu pé de serra
Deixei ficar meu coração
Ai que saudades tenho
Eu vou voltar pro meu sertão”


O som da sanfona, zambumba e triângulo, tríade sempre presente na obra de Luiz Gonzaga, estabelece uma relação indissociável com o ambiente sociocultural do sertão, com seu tradicionalismo arraigado, que leva a uma ideia de imutabilidade e traz a imagem de Nordeste não passível de progresso e desenvolvimento.

A verdade é que Gonzaga foi o primeiro artista a tentar traduzir em sua música a percepção do Nordeste como unidade, um espaço que faz oposição ao sul. Ele foi o primeiro representante de uma “voz do Nordeste”, que se preocupou em tornar os problemas da região conhecidos pelo governo, além de tentar despertar o interesse pelas tradições do local. Nesse processo, outros discursos sobre a região foram silenciados por não usufruírem dos mesmos recursos midiáticos que tinha o de Gonzagão.  Recursos esses que foram são frutos, justamente, dessa pretensão de uma produção cultural que atendesse a todos os migrantes nordestinos que habitavam as grandes cidades. Para os empresários do ramo “havia uma lacuna a ser preenchida no empreendimento popular das emissoras: o grande contingente de público que migrava do Nordeste para trabalhar na capital” (Vieira, 2000).

Um trecho do artigo “Música popular, valor e identidade no forró eletrônico do Nordeste do Brasil”, de Felipe Trotta (2009), resume o fenômeno Luiz Gonzaga:
“Em meados do século passado, as narrativas do sertão cantadas no repertório  gonzagueano, quase todo composto em parceria com Zé Dantas ou Humberto Teixeira,  ecoavam de forma altamente expressiva na memória de milhares de migrantes, que  compartilhavam os significados, as paisagens e as imagens. Colaboravam, assim, para a  consolidação de uma imagem de Nordeste, estreitamente vinculada à idéia de sertão e  apontando inexoravelmente para o passado, para a memória e para a saudade. O baião será a  “música do Nordeste”, por ser a primeira que fala e canta em nome desta região. Usando o  rádio como meio e os migrantes nordestinos como público, a identificação do baião com o  Nordeste é toda uma estratégia de conquista de mercado e, ao mesmo tempo, é fruto desta  sensibilidade regional que havia emergido nas décadas anteriores”. 

Quando foi 68? : Os anseios sociais em um mundo conturbado
Por Antônio Júlio Rebelo Neto e Simony César

O mundo durante o pós-guerra era marcado por incertezas. Havia a corrida armamentista entre as potências mundiais EUA e URSS, o colapso econômico nos países do chamado “Eixo”, Alemanha, Japão e Itália, as cidades europeias destruídas, culturas territoriais alteradas, entre tantos outros eventos obscuros.
Tudo “coroado” por uma guerra de ocupação. Onde os combates militares formais apenas se deram no início e final do conflito, predominando neste intervalo a opressão dos invasores, com os civis constituindo-se em uma grande massa de oprimidos fisicamente e mentalmente. Estimam-se em 40 milhões de mortos civis.
De fato, as pessoas buscavam modelos a seguir, que levassem a uma condição de vida mais digna e mais humana. Tratados foram criados entre as nações, ligas foram formadas, países unidos em busca de paz.
Assim, as guerras legitimaram o objetivo de se alcançar um Estado liberal, que almejasse a justiça e a democracia.
Realizou-se em 1954 a Conferência de Genebra, que objetivava restaurar a paz na Indochina e Coreia, após a derrota francesa no Vietnã. Vale ressaltar que a França recebia apoio financeiro e militar estadunidense, enquanto soviéticos e chineses apoiavam os vietnamitas. Assim, temporariamente o Vietnã seria dividido em norte (socialista) e sul (anticomunista) até a próxima eleição que seria em 1956.
Contudo, os Estados Unidos não assinaram o acordo de Genebra, invadindo posteriormente o Vietnã do Sul, impondo um golpe de estado ao governo de Bao Dai, colocando em seu lugar, Ngo Dinh Diem, comprometido com os norte-americanos.
Diem implantou uma ditadura militar, proclamou a independência do Vietnã do Sul e cancelou as eleições previstas pelo Acordo de Genebra, porque havia a convicção de que ela daria a vitória a Ho Chi Minh, chefe da nação vietnamita do norte.
Isto demonstrava o nível ético ao qual os Estados Unidos estava disposto a adotar para conseguir vencer a Guerra Fria contra a URSS e, consequentemente, contra o comunismo, sistema abominado na América do Norte, mas que ganhava força popular em países nacionalistas que lutavam por sua independência.
O conflito no Vietnã foi catastrófico. Mais ainda para os norte americanos, que viram sua imagem ruir perante o mundo civilizado e pelos próprios cidadãos estadunidenses. Pois, o conflito foi amplamente divulgado pela mídia, onde imagens de horrores eram transmitidas pela televisão o que causava repulsa na população. Além do fato de que com a guerra, eis que surge uma forma de combate que mais tarde se espalharia pela América: a guerrilha.
Enquanto o mundo assistia espantado a derrocada norte-americana, na França há manifestações populares crescentes. Manifestos estudantis, reinvindicações do proletariado e insurgências civis marcam a sociedade francesa na década de 60.
A maioria dos insurretos eram adeptos de ideias esquerdistas, comunistas ou anarquistas. Lutavam para verem mudar os valores pertencentes a uma antiga e decadente burguesia, cujo resgate de força se deu pelo governo de De Gaulle.
O operariado na França fazia greves, contestava seus patrões e exigia melhores condições de trabalho. Armavam “barricadas”, enfrentavam a polícia, cuja força o governo utilizava nas chamadas “blitz”.
Os intelectuais de esquerda lançavam livros e manifestos, conduziam seus discursos sobre a revolução. Conhecida como a revolução dentro da revolução, uma observação para que houvesse mudanças de comportamento entre os insatisfeitos do atual governo. Era preciso lutar. Assim, Régis Debray, Cohn-Bendit, Alan Geismar e Jacques Sauvageot se tornavam emblemáticos na contestação do capitalismo a todo custo e a exploração dos trabalhadores.
Era conhecida como a “Nova Esquerda” e pregava novas atitudes. Eles se diferenciavam dos movimentos esquerdistas anteriores, e adotaram uma definição de ativismo político mais ampla, comumente chamada de ativismo social. Temas como sexualidade, gênero, liberdade, raça e igualdade ganharam destaque para estes ativistas, não importando apenas o aspecto político-econômico nacional.
Nos países latino-americanos, também ocorriam mudanças. Em Cuba caía Fulgencio Batista, ante a guerrilha revolucionária de Fidel Castro. Este por sua vez implantava no país um governo socialista, que nacionalizou fazendas privadas, propriedades religiosas e propriedades estrangeiras. Na Venezuela, os “direitistas” traíram os guerrilheiros, ampliando o embate entre os pobres e os ricos. Na Bolívia, rangers treinados por instrutores norte-americanos lutaram contra os revolucionários de Che Guevara, culminando em sua morte. No Chile, Eduardo Frei Montalva, de orientação política cristã de direita, ganhava as eleições contra Salvador Allende, que era socialista, utilizando intervenção publicitária da CIA. Na antiga Tchecoslováquia o socialismo também sofria duras quedas, pela dissolução dentro do Partido Comunista, aliás, dissoluções estas amplamente espalhadas pelo mundo.
Esta quebra dentro do PC se dava muitas vezes por divergências ideológicas dos seus intelectuais fundadores. Uns de tendência mais pacifista, a exemplo do Chile de Allende, outros mais combatentes como a URSS, Cuba e China. O que dificultava a unidade global em torno do ideal marxista e leninista.
Agindo assim, os comunistas enfraqueceram-se em seus países, dando lugar aos capitalistas liberais, que com a ajuda do grande capital propagandista arrebatavam cada vez mais simpatizantes ao seu sistema.
Aqueles anos entre 1960 e 1970 era um prenúncio do que o mundo se tornaria o que é nos dias atuais. Os partidos políticos cada vez mais desamparados em ideologias, as pessoas mais informadas e independentes do Estado e o incessante caminhar humano em busca de reformas sociais (decadência econômica das antigas potências capitalistas, consciência ecológica, queda de ditaduras, etc.), que tragam mais satisfação coletiva.

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Sobre ética e psicanálise: a relação com o Outro.


Por Clarissa Viana, Kamilla Rogge e
Márlon Diego Oliveira.
Discentes do curso de Jornalismo da Universidade Federal de Pernambuco.
               


Em seu livro Sobre Ética e Psicanálise, a psicanalista Maria Rita Kehl aborda as questões éticas que permeiam a psicanálise nos tempos atuais: o pensar sobre si e sobre a relação com o Outro na chamada “cultura do individualismo”, e como essa reflexão é afetada pelos códigos que tem ditado o comportamento da sociedade ao longo dos anos.

Maria Rita Kehl
Maria Rita utiliza a psicanálise como base indispensável para explicar o comportamento do homem moderno e a sociedade do consumo, e discorre sobre a ética necessária para se meditar a respeito dos valores que contradizem filosofias que ditam a forma de se conviver em sociedade há milhares de anos através de discursos transmitidos de geração em geração, como por exemplo, as formações da cultura de origem mítica – mitologia, religião e tradição.

Mas como podemos discutir a ética de valores que não são declarados facilmente, como a violência, o prazer narcisista, o acúmulo de dinheiro, a exclusão do outro?

A ética trata da questão da convivência, e ao levarmos isso em consideração, o individualismo exacerbado da sociedade atual seria considerado antiético. Segundo alguns estudos expostos por Freud e Lacan, por exemplo, o primeiro sentimento despertado pela entrada de um indivíduo semelhante em nossa vida é o ódio, pelo fato de ele ser semelhante na diferença.

“Por ser ao mesmo tempo tão semelhante e tão diferente, o “próximo” vem sempre nos deslocar de nossa ‘identidade’ (uma ilusão narcisista), pois traz inevitavelmente a questão: se eu sou este e ele se assemelha tanto a mim, mas não é eu, quem é ele? Diante dele, quem sou eu?”. (KEHL, 2002, p.20)

A convivência com o outro aparece nos dias de hoje, não como solução, mas como um problema. A ética do homem moderno não se orienta na direção do convívio com o outro, pois na verdade ela tornou-se uma ética da não convivência.

Podemos notar que nos tempos modernos os questionamentos sobre o que é certo e o que é errado deixaram de ser ditados por autoridades míticas e passaram a ser um questionamento pessoal. Mas o legado de liberdade trouxe também o desamparo. O sujeito moderno agora é um sujeito dividido entre ter de gozar e ter de conviver.

Portanto, o fato de não declarar alguns valores apesar de senti-los põe o indivíduo em desacordo com seus próprios desejos. Ele tem de ser juiz de si e também levar em conta a existência do outro. O fato de ter de governar a si próprio pode causar ao sujeito moderno a sensação de desamparo e descontrole. A psicanálise então surge como um norte, pois o ser humano sente a necessidade de que sua vida faça algum sentido. E não passa de uma grande ilusão achar que a criação de sentido para a vida é um ato individual.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

KEHL, Maria Rita. Sobre ética e psicanálise. São Paulo: Companhia das Letras, 2002. 

segunda-feira, 6 de agosto de 2012


Comunicação, linguagem, moda e suas particularidades

                                                                                                                            Por: Márlon Diego de Oliveira
                                                                                     Kamilla Rogge
                                                                                                                                      Clarissa Viana de Andrade

                                                                                                                                                   
         

           Quando refletimos sobre a comunicação, em primeira instância, somos induzidos a limitá-la ao âmbito da linguagem falada e da linguagem escrita. Contudo, a comunicação não se restringe a essas esferas. Logo, ela transcende as formas de interação verbal e está presente nos mais diversos setores da vida social.
          Ao realizar uma análise sobre a interligação existente entre a comunicação, a linguagem e a moda, percebe-se que esta também utiliza a comunicação não verbal a fim de que se possa compreender em totalidade a sua aplicação, isto é, a moda, através da indumentária, também pode ser considerada uma forma de linguagem, pois transmite precisas informações acerca dos indivíduos inseridos em um contexto social.  Dessa forma, a moda e a vestimenta são usadas com o intuito de atribuir sentido ao mundo, as coisas e às pessoas que o integram, fato que, segundo Barnard, as estabelece como fenômeno comunicativo e dá forma a um sistema estruturado de significado.
          O uso de vestimentas é fundamental por três razões: proteção (a fim de proteger-se de agressões do meio), pudor (bastante ligado a questões religiosas) e adorno (motivo mais instigante pelo qual podemos fazer uma pesquisa a respeito dessa temática, visto que há uma enorme complexidade na efetuação do simples ato de se vestir). Ainda no que concerne ao uso de vestimentas como adorno, alguns fatos merecem ser ressaltados: ao vestir o corpo, o indivíduo produz significação e, as roupas utilizadas também são uma forma de se comunicar; quando há o processo de ornamentação do corpo, além de haver um ato comunicacional, também há a representação de valores sociais, já que o corpo “ganha existência” por meio de uma fabricação social.
          Antes de iniciar qualquer tipo de conversação, as pessoas já se comunicam, ou seja, através do vestuário, as pessoas podem transmitir às outras informações como: estado de humor, classe social, ideologia política, desejos sexuais, entre outros. Por isso, é necessário considerar que o “idioma” das roupas está em constante mutação e, além disso, as novas ideias e fenômenos sociais necessitam de novas palavras e novos estilos para expressá-los. 
          Então, se existe um “idioma” para as roupas, é fundamental a existência de um “vocabulário” e uma “gramática” capaz de interpretá-lo. Assim como a língua falada, a linguagem da roupa possui uma enorme diversidade cultural e geográfica, a partir dos mais variados dialetos e sotaques, e também dos tons imprimidos pelos indivíduos em seu discurso.
          Independentemente da forma ou tipo de linguagem, a moda sempre terá ao seu dispor um sistema de organização peculiar, uma codificação semelhante ao alfabeto para a realização da troca de mensagens. Por sua vez, este “idioma” não se forma apenas com roupas. Acessórios como estilo de cabelo, piercings, tatuagens, maquiagem e decoração também estão imersos nessa forma de significação. Após a elaboração da linguagem da moda, as peças inclusas neste adquirem uma significação própria em um conjunto de pessoas, e dão forma ao discurso da indumentária.
          A partir da formação desse idioma, a transmissão de mensagens se dá a partir de uma peça de roupa, acessórios, adereços, entre outros, escolhidos de modo que traga uma sensação de compartilhamento de ideologias, estado de ânimo, etc., por parte de quem as emite e, estas pessoas somente serão “bem-sucedidas” nesta missão caso o receptor consiga compreender o conteúdo inerente a estas. Portanto, apenas neste caso o processo comunicativo obterá êxito.
          Quando se examina a relação existente entre linguagem e comunicação, infere-se que a moda incorpora de significado à sociedade contemporânea e, com isso, produz uma ligação entre sujeito-imagem-moda, que tem o consumo como meio de ligação entre ambos. Portanto, o consumo passou a ser um modo de identificação para o sujeito absorto em um mundo repleto de imagens e envolvido pela moda. Desse modo, quando optamos pela compra ou utilização de uma roupa, estamos tentando nos descrever e nos definir, por isso, escolhemos as peças com a intenção de mostrar quem somos ou tentamos ser no determinado instante.
         Portanto, com o objetivo de assimilar o constante desejo de compreensão mútua proveniente dos indivíduos em uma sociedade, é de suma importância apreender a estreita relação entre comunicação, linguagem e moda nos dias atuais. 

Quando foi 68?: A Política Em Meio À Ditadura

por Antônio Júlio Rebelo Neto e Simony César


O ano de 1968, no Brasil, foi marcado pelo endurecimento da ditadura no país. Sob o poder militar representado então pelo marechal Costa e Silva, a sociedade civil brasileira padecia ante os disparates governamentais. Entre eles, o AI-5 (Ato Institucional Número Cinco) garantia ao presidente da República Federativa do Brasil poderes tamanhos tal qual o fechamento do Congresso Nacional, marcando de vez o endurecimento do regime. De fato, o AI-5 institucionalizava a repressão e tortura aos oposicionistas do governo militar.
Assim, os partidos tidos como de “esquerda” eram os principais alvos dos militares. Isso porque os militantes esquerdistas eram quem combatiam o atual do governo. Com isso, surgiam grupos organizados, alinhados com a ideologia comunista, e que almejavam o fim da ditadura. Logo, estes grupos ganharam força frente à sociedade civil, o proletariado, artistas e os estudantes, todos, nesta época, ansiosos por mudanças no quadro político nacional.
 Neste contexto, a militância de esquerda ganhava força nos grêmios estudantis, buscando na juventude a formação de futuros combatentes. Os grêmios funcionavam como locais de reunião entre membros partidários da oposição, como PC do B, PCB e PCBR, juntos, obviamente, dos estudantes. Além dos partidos comunistas, havia ainda as organizações de cunho revolucionário, muitas vezes originados por dissidentes partidários de esquerda, como por exemplo, a Aliança Nacional Libertadora (ALN), a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), o Movimento Comunista Revolucionário (MCR), a Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (VAR-Palmares), entre outros. Algumas destas organizações de extrema esquerda possuíam a vantagem de contar entre os seus membros com antigos soldados do regime, que deserdaram do Exército Brasileiro para ir lutar ao lado dos comunistas.
Eram utilizadas diversas formas de combate, desde práticas violentas como assaltos a bancos, sequestros e atentados, até ações propagandistas como pichações, panfletagem e veiculação de jornais. Em consequência da constante vigilância ditatorial, as ações contrárias ao governo aconteciam de forma esporádica. Mais ainda, a divulgação de ideias oposicionistas através dos meios impressos, constantemente, se reduzia a jornais, cuja circulação predominava entre os membros dos partidos esquerdistas.
Isto porque, no Brasil da ditadura, o medo era um fator permanente na vida das pessoas. Gente desaparecia no calar da noite, o silêncio rondava as ruas, e a desconfiança marcava as relações sociais. Havia os infiltrados do governo, os delatores do sistema, que obrigavam os indivíduos a medirem sempre suas palavras. O controle social era caracterizado pela censura, havendo censores nos teatros, na literatura e, obviamente, nos jornais. Versos musicais eram excluídos ou adulterados, a mesma coisa para as falas de personagens em peças teatrais. Matérias eram lidas antes de serem publicadas, havendo corte caso assim desejasse os censores.
No entanto, muitos jornais continuaram a publicar notícias que informassem ao seu público a conjectura geral da Nação. A maioria deles eram jornais comunistas, mimeografados, muitas vezes produzidos em pequenos cômodos, de modo a se refugiar da perseguição dos ditadores. Alguns eram bem conhecidos, como Opinião, O Pasquim e Movimento. Contribuíram assim para o boom do jornalismo alternativo da chamada imprensa nanica e/ou combativa as pressões pelos censores dentro das redações, os jornais a serviço do governo, e a condição a que eram submetidos os jornalistas, que ficavam “atados”. Assim, estes jornais em tamanho de tabloides (variação do termo “imprensa nanica”) podiam ser basicamente de dois tipos: alguns predominantemente políticos e de outro lado, jornalistas cansados do discurso ideológico. Em geral pedagógicos e dogmáticos, o primeiro tipo tinha raízes nos ideais de valorização do nacional e do popular dos anos 50, ou no marxismo vulgarizado nos meios estudantis nos anos 60. O segundo tipo se inspirava nos movimentos de contracultura norte-americana, no orientalismo, anarquismo, existencialismo, era contra o autoritarismo e a moral da burguesia e aderia às drogas.
 Poderia se classificar o período de circulação dos principais jornais alternativos em quatro fases. A primeira foi quando o objetivo era revolucionar o país. Conseguinte, surgiu a fase da resistência ao poder, onde reformularam a linguagem e as críticas, quando aumentou sua perseguição por parte da censura. No final dos anos 70, com a abertura política, as redações dos jornais alternativos foram deixando a clandestinidade e ganhando o espaço público. Na fase final os jornais se voltavam aos movimentos populares de base.
Evidentemente, a imprensa alternativa obteve papel importante quanto à circulação de informações e ideias de natureza diversificadas, além de combater os desmandos de um governo autoritário. Como disse Kucinski, “a imprensa alternativa dos anos 70 era tudo isso ao mesmo tempo. Em contraste com a complacência da grande imprensa para com a ditadura militar, os jornais alternativos faziam a crítica sistemática do modelo econômico. Inclusive nos anos de seu aparente sucesso, durante o milagre econômico - de 1968 a 1973 -, destoando assim do discurso triunfalista do governo ecoado pela grande imprensa, construindo dessa forma todo um discurso alternativo”. (1998, p. 179)



Referência bibliográfica

KUCINSKI, Bernardo. A síndrome da antena parabólica. SãoPaulo: Fundação Perceu Abramo, 1998.

Quando foi 68?: Cinema, Música e Política

por Mário Augusto Rolim


MÚSICA:

 O ano de 1968 é tido, por merecimento, como o ápice dos movimentos de contracultura que se espalharam por várias partes do mundo entre o final da década de 1960 e o começo da década de 1970. Um bom meio de evidenciar isso é lembrar o número de músicas pop que, se não defendiam a revolta, pelo menos demonstravam uma percepção de que alguma coisa diferente estava acontecendo naqueles anos finais da década. Mesmo bandas e artistas que eram – e continuaram depois – apolíticas escreveram pelo menos alguma música relacionada à situação sociopolítica daquele tempo. Sim, os anos de maior engajamento dos jovens em movimentos contraculturais ou de protesto coincidiram com os anos de maior tendência ao protesto na música pop, mas, mesmo nessa época, protestar explicitamente através de músicas não era comum. Na verdade, esse tipo de comportamento é comum nas artes comerciais em geral, desde a música até a literatura e o cinema. Tal tipo de músicas era mais comum em artistas relacionados ao movimento de revitalização da folk music americana e artistas como Joan Baez, Bob Dylan (entre os anos de 1963 e 1965), Pete Seeger e Peter, Paul And Mary.
Posso começar com o Cream, um supergrupo de rock que em suas letras seguia as tradições do blues com uma influência de rock psicodélico, e preferia fazer covers de clássicos do blues a abordar temas sociais em suas músicas. Mas em 68 eles escreveram e lançaram, no álbum Wheels of Fire, uma canção chamada ‘Politician’, descrita na crítica do álbum na Allmusic como “um blues lento, cínico”. A letra critica o lado hipócrita e falso dos políticos, com um eu-lírico que “apóia a esquerda apesar de estar se inclinando para a direita”, que “não está lá quando há uma briga”, se declarando “um homem político que pratica o que prega” e que chama uma pessoa desconhecida (provavelmente uma mulher) para dentro do seu “grande carro preto” para “mostrar suas políticas”.
A banda californiana The Doors seguia caminho parecido ao Cream em termos de letras e de propensão a fazer covers de clássicos do blues, mas em 68 eles largaram sua postura passiva por um momento e lançaram no álbum Waiting For The Sun a canção ‘The Unknown Soldier’. Nela, Jim Morrison – vocalista e principal compositor da banda – aborda o modo como a mídia tratava a Guerra do Vietnã escrevendo “Café da manhã onde as notícias são lidas/Televisão alimentou as crianças/Não-nascidos vivendo, mortos-vivos/Bala atinge a cabeça com o capacete”, e também escreve “Faça uma cova para o soldado desconhecido/Aninhado na tumba de seu ombro”, terminando a música com uma encenação do fim da guerra. Ao tocar essa canção, a banda também costumava simular de um pelotão de fuzilamento, através de uma combinação de sons da bateria e guitarra e Morrison caindo no palco, como que fuzilado pela guitarra.
Outra banda de rock que seguia uma vertente semelhante às duas anteriores na composição de suas músicas eram os Rolling Stones. Em 68, Mick Jagger compôs ‘Street Fighting Man’ para o álbum Beggars Banquet. A inspiração para escrevê-la após ir a uma manifestação anti-guerra em frente à embaixada americana em Londres naquele ano, na qual policiais investiram contra uma multidão de aproximadamente vinte e cinco mil jovens. Na letra, Jagger toma partido dos protestantes/”revolucionários” e retrata muito bem o ambiente daquele momento, dizendo que “Em todo o lugar eu escuto o som de pés marchando/Porque o verão chegou e a hora é certa para lutar nas ruas” e que “Acho que o momento é certo para uma revolução palaciana”, apesar de lamentar que “Mas o que um pobre garoto pode fazer/A não ser cantar em uma banda de rock ‘n roll/Porque na sonolenta cidade de Londres não há lugar para um lutador de rua”. Os Stones pretendiam lançá-la como single, com uma foto de policiais batendo em manifestantes de Los Angeles, mas a distribuidora rapidamente proibiu sua circulação. O single foi também banido em várias rádios americanas, que alegavam que ele era “subversivo” e podia “incitar violência”. Jagger respondeu dizendo que “É claro que é subversivo! É estúpido pensar que se pode começar uma revolução com um disco. Quem dera se pudesse!”.
Seguindo a linha de bandas de rock que tinham letras (e canções) influenciadas primariamente por blues e rock psicodélico, temos a Jimi Hendrix Experience. Para seu álbum de 1968, Electric Ladyland, Hendrix compôs ‘House Burning Down’ (segundo ele porque não entendia o porquê de irmãos – no sentido mais amplo do termo – queimarem as casas uns dos outros) uma referência aos protestos anti-racismo do verão de 68, em que várias casas e estabelecimentos foram incinerados. Também tem conotação sociopolítica a canção ‘1983... A Merman I Should Turn To Be’, apesar dela estar um pouco escondida por trás de metáforas e uma das letras mais poéticas de toda a carreira de Hendrix. Nela, o eu-lírico fala sobre querer renascer sob a forma de um sereio junto com seu amor, fugindo da guerra e seu “barulho mortal”. Ele também lamenta que “nossos amigos não podem estar conosco hoje”, numa referência aos assassinatos de Martin Luther King Jr. e Robert Kennedy, separados por apenas dois meses. Hendrix também faz alusão ao bombardeio – através de mísseis, bombas e napalm – ao Vietnã feito pelos Estados Unidos, com “Coisas gigantes com formato de lápis e batom/Continuam a chover e causar dor gritante”. O título é uma referência à seção 1983 – que fala de ação civil à deprivação de direitos - do Civil Rights Act de 1871, feito para proteger - legalmente - os negros de ataques racistas, o que extinguiu a Klu Klux Klan por décadas.
Pode-se terminar mencionando justamente os Beatles, a maior banda de rock da história, que em seu Álbum Branco de 1968 uma música chamada ‘Revolution 1’ e outra chamada ‘Revolution 9’. Os Beatles até então só tinham abordado temas sociopolíticos em suas músicas (a maior parte estava bem longe disso) em ‘Taxman’, uma crítica irônica aos impostos pagos pelos britânicos naquela época. ‘Revolution 1’ é uma canção sobre as revoluções (ou tentativas de revolução) que ocorreram no mundo no primeiro semestre de 1968, principalmente. Em vez de enaltecer tais revoluções – como poderia ter acontecido, já que os Beatles eram contra a Guerra do Vietnã e estavam entre os principais expoentes da cultura hippie na música -, a letra de John Lennon questiona o planejamento e a abordagem dos revolucionários, ao mesmo tempo em que mostra o caráter dúbio do seu compositor, que não sabe se quer se juntar aos revolucionários ou não. Essa ‘crítica da crítica à sociedade’ não era fácil de ser encontrada nos trabalhos artísticos de bandas anti-stablishment da época, já que os hippies como um todo pareciam imbuídos de um estado de crescente otimismo de 1967 a 1970. John Lennon chegou a ser criticado por radicais de esquerda, que alegaram que a canção era uma traição ou uma demonstração burguesa de medo, e até perseguido por grupos que seguiam ou eram favoráveis a Mao, Trotski e Lênin. Já ‘Revolution 9’ é completamente diferente da sua “companheira”, e também completamente diferente de qualquer outra música dos Beatles ou de qualquer banda de música pop da história, se constituindo de uma colagem vanguardista de sons e efeitos sonoros dos mais variados, pontuados por vocais que na maior parte das vezes são quase incompreensíveis, chegando a cerca de oito minutos. Inicialmente, ‘Revolution 1’ e ‘Revolution 9’ seriam uma música só de aproximadamente dez minutos, com a primeira dando lugar à segunda, mas Lennon decidiu separá-las e fazer uma seção de colagens mais elaborada (e complexa) do que originalmente previsto. A inclusão dela no álbum chocou não só o público, que anos atrás podiam ver os Beatles vestidos de jovens comportados tocando músicas até inocentes como ‘She Loves You’ e ‘I Wanna Hold Your Hand’, mas também os próprios membros da banda e profissionais que trabalhavam com ela (Paul McCartney era contra a inclusão dela, que acabou sendo a canção de estúdio de maior duração dos Beatles, no álbum; George Harrison ajudou na edição e contribuiu gravando algumas partes vocais). É praticamente impossível se tirar uma mensagem da “letra” de ‘Revolution 9’, mas não estaria John Lennon fazendo também uma excêntrica espécie de revolução com sua aventura pela música concreta? Muitos críticos chegaram a afirmar que a inclusão de ‘Revolution 9’ no Álbum Branco era o fator essencial que o tornava mais que um álbum de música pop. Um álbum-conceito, alguns diriam, outros falariam de um suposto gênero musical chamado ‘art rock’. Não importa. John Lennon pode não ter tido sucesso em sua revolução pessoal, mas ninguém pode falar que ele não chocou o mundo, ou que ele não deixou uma mensagem.
Essas duas canções são um bom exemplo para diferençar os variados tipos de ações políticas de protesto ou de demonstrações de consciência política que eram/são feitas através da arte, mais precisamente a música, naquele momento da história. De um lado, as músicas de crítica social explícita, ainda que essa crítica venha em forma de metáfora ou outras figuras de linguagem. Como exemplo eu posso citar ‘Blowin’ In The Wind’ e ‘The Times They Are A-Changin’’, de Bob Dylan, ou ‘Pra Dizer Que Não Falei das Flores’, de Geraldo Vandré. Em outra vertente eu colocaria os trabalhos musicais que procuravam não fazer uma crítica sociopolítica explícita através das letras, mas que acabavam por ter um impacto mesmo assim. Claro, sempre houveram e haverão artistas que parecem ser até despretensiosos socialmente e preferem se manter longe de qualquer discurso político, mas que conseguem chocar mesmo assim. Esses sempre estiveram conscientes do seu papel no meio artístico e da sua capacidade de crítica ao meio cultural e social em que habitam, como Caetano Veloso, The Velvet Underground e Miles Davis.
Não vou longe o suficiente para dizer que todo ato artístico é em si também um ato político, mas não se podem negar certas coisas. A mera existência de uma banda como o Velvet Underground, por exemplo, com seu som muitas vezes estranho e distorcido e suas letras falando sobre consumo de drogas e perversão de diferentes tipos já é em si uma grande afronta ao sistema político. Quanto à importância desses diferentes tipos de discursos políticos, Caetano Veloso menciona em sua autobiografia ‘Verdade Tropical’ que Geraldo Vandré chegou a procurar o empresário de Caetano e Gil para pedir a eles que não entrassem no páreo (nas disputas por festivais ou mesmo por espaço nas rádios e na mídia), alegando que “o Brasil necessitava daquilo que ele, Vandré, estava fazendo (ou seja: canções “conscientizadoras das massas”) e que, como o mercado não comportava mais de um nome forte de cada vez, nós todos deveríamos, para o bem do país e do povo, jogar todas as cartas nele”. Vandré já era o cantor de protesto por excelência no país e além de auto-confiança e desejo de “conscientizar as massas”, também está por trás desse pedido uma noção de que o tipo de música que ele fazia era mais importante para o país do que a Tropicália. Também havia em Vandré uma cobrança para que Caetano, Gil e tantos outros tornassem sua crítica política mais veemente. É impossível determinar qual dessas duas vertentes efetivamente causa mais impacto, mas o fato é que a Tropicália, com sua desenvoltura, maneira performática e até escandalosa de se apresentar e mistura de diferentes gêneros musicais com a própria poesia, até, chocou tanto adeptos da bossa nova quanto do rock (a principal dicotomia musical da época). A prova de que a Tropicália também era uma ameaça à ditadura veio quando Caetano Veloso e Gilberto Gil foram presos após uma apresentação na TV em tempos de Natal na qual Caetano cantava ‘Noite Feliz’ apontando uma arma para a própria cabeça (Caetano quase pediu para ser preso, convenhamos). Na prisão, oficiais chegaram a dizer a Caetano que achavam a música que eles estavam fazendo bem mais ultrajante e perigosa (não nessas palavras) que músicas de protesto mais claras. Depois de algum tempo, a cabeça de Caetano foi raspada na prisão. Nesses tempos, até ter cabelo grande podia ser um ato político.



CINEMA:

            Entre as formas de arte (ou de pensamento e expressão) que entraram em ebulição nos anos 60, mais precisamente no final da década, mais precisamente ainda em 1968, o cinema foi certamente uma das mais afetadas pelo espírito da época e uma das que melhor souberam transmiti-lo. Mas não poderia ser diferente. Provavelmente é unânime que o cinema é a arte do século XX, e aquela que mais se firmou como uma das mais populares e amadas do mundo e a que mais povoou imaginário popular.
            Num cenário em que até estudantes que haviam cogitado coisa parecida se mobilizaram para enfrentar forças armadas do governo, e bandas que nunca haviam sequer mencionado assuntos políticos em suas músicas demonstraram atenção ou interesse ao cenário sociopolítico da época, provavelmente o cinema não teve um impacto tão grande nas questões políticas do fim da década de 60. Talvez tenha sido assim pela demora na produção e distribuição de um filme ser bem maior que de um disco, por exemplo, pela maior facilidade em censurar ou proibir a circulação de filmes, ou talvez pela própria tradição do cinema de não dar tanta importância aos problemas sociopolíticos de sua época. Mas analisar os filmes dos anos 60 assim é ver só um dos lados da moeda. Isso porque o cinema tem uma política própria, na qual as críticas (ainda que não estejam explícitas) estão mais voltadas para o mercado e o modo como o cinema é tratado do que com o cenário social. No caso, a “politique des auteurs” (política dos autores), termo usado pela primeira vez por François Truffaut em 1954.
            Essa política é um desenvolvimento de um ensaio escrito por Alexandre Astruc em 1948, chamado ‘Nascimento de uma nova vanguarda: a câmera-caneta’, no qual ele previa que o diretor/autor escreverá como um escritor escreve com sua caneta. A teoria foi retomada na Cahiers Du Cinéma por críticos (e futuramente cineastas) como André Bazin, Jean-Luc Godard, François Truffaut e Eric Rohmer. Na Cahiers havia uma defesa dessa nova forma de se analisar filmes na qual se via o diretor como autor máximo da obra, o estabelecimento do cinema como uma verdadeira e respeitável forma de arte através do desenvolvimento de uma estética própria, dando mais bem mais importância e destaque aos diretores vistos como autores, como Bresson, Renoir, Hitchcock, Welles, Kurosawa, Bergman, só para citar alguns. Ao tomar o partido de filmes mais pessoais e artísticos, essa política também rejeitava os filmes comerciais, pensados para fazer os estúdios lucrarem enquanto agradavam o grande público. A política foi adaptada para o inglês como “auteur theory” por Andrew Sarris, um dos mais importantes críticos de cinema dos Estados Unidos, em 62. Obviamente, essa política recebeu várias críticas, até mesmo de críticos respeitados como a americana Pauline Kael, mas é inegável que esse novo modo de analisar filmes influenciou profundamente tanto críticos e espectadores como diretores, e ainda é importante para a história do cinema e assunto de calorosos debates sobre a sétima arte.
            O sucesso da política dos autores foi efetivado e deu frutos com o sucesso da chamada Nouvelle Vague, vanguarda do cinema francês formada em grande parte por críticos da Cahiers Du Cinéma como Truffaut, Godard, Rohmer, Chabrol e Rivette, tendo se iniciado no fim da década de 50 e atingindo seu potencial máximo na década de 60. Os filmes da Nouvelle Vague eram de baixo orçamento e principalmente por causa disso tinham deficiências técnicas evidentes, mas eram autorais e dotados de uma aura de juventude como nenhum filme de Hollywood, e constantemente desafiavam os clichês de gêneros e os moldes seguros dos filmes comerciais, em questões que iam desde estruturas narrativas até o emprego de atores não-profissionais em papéis importantes. As influências fílmicas que formaram a estética dos diretores da Nouvelle Vague eram várias, indo desde os filmes noir americanos até neorrealistas italianos e de diretores-autores do cinema francês como Jean Renoir.
            Menciono a Nouvelle Vague primeiro porque foi ela que, sem dúvida, mais influenciou e impulsionou a criação das vanguardas do cinema que surgiriam na década de 60. Ecos da Nouvelle Vague foram ouvidos em várias partes do globo. Nos Estados Unidos, filmes como Bonnie & Clyde (1967) e Sem Destino (1969) evidenciavam o nascimento da chamada Nova Hollywood, dotada de jovens diretores como Scorsese, Coppola, de Palma, Friedkin, Peckinpah, Bogdanovich, Malick, Spielberg, Altman e Ashby, entre outros. Esses cineastas lutavam contra a ideologia repressora, antiquada, e voltada para o mercado dos grandes (e decadentes) estúdios enquanto tentavam dominar o sistema de estúdios e assim conquistar mais autonomia e melhor financiamento, produção e distribuição de seus filmes, muito mais ousados e pessoais que os da Hollywood clássica.
Na antiga Tchecoslováquia, pouco tempo antes dela se tornar um caldeirão com a Primavera de Praga, cineastas como Milos Forman, Jan Nemec, Jíri Menzel, Ján Kadár e Vera Chytilová faziam filmes que desafiavam e criticavam os valores e as condições sociopolíticas de sua sociedade, ainda que não explicitamente. Muitos deles foram atacados ou proibidos pela censura governamental, e Forman e Nemec tiveram que deixar o país.
            Enfrentando situação semelhante (vivendo sob um regime autoritário e desigual que costumava censurar filmes e outras formas de arte) estavam os cineastas do Cinema Novo no Brasil, como Glauber Rocha, Nelson Pereira dos Santos e Joaquim Pereira de Andrade, sendo parte fundamental do que foi chamado de Terceiro Cinema, ou seja, um cinema do Terceiro Mundo. Ângela Prysthon abordou esse cinema no artigo ‘1968: Imagens de Uma Utopia’, dizendo:

“De acordo com a idéia de transformação da sociedade pela conscientização trazida à tona pelos ideais terceiro-mundistas, os principais temas dos filmes do terceiro cinema vão ser a pobreza, a opressão social, a violência urbana das metrópoles inchadas e miseráveis, a recuperação da história dos povos colonizados e oprimidos e a constituição das nações. Os praticantes do terceiro cinema recusam adotar um modelo único de estratégias formais ou transformar-se em um “estilo”, embora isto não tenha significado que eles estivessem alheios ao cinema mundial e à idéia de um modelo, se aberto, ao menos em linhas gerais unificador.
Ou seja, além de buscar os temas nas esferas marginalizadas da sociedade, estes cineastas demonstram laços estilísticos estreitos com o neo-realismo italiano e a Nouvelle Vague francesa. Tais influências vão ser sentidas em dois níveis principais: o neo-realismo italiano serve como proposta similar de abordagem formal que pode ser aproveitada por sua simplicidade, baixo custo e linguagem direta; e a Nouvelle Vague enquanto afirmação do “cinema de autor”, o que possibilita a consolidação das linguagens individuais dos principais expoentes do movimento. A partir desses elementos, emerge um conjunto de procedimentos mais ou menos comuns à maioria dos diretores engajados na denúncia social.” (PRYSTHON, p. 16)

            Certamente os diretores do Cinema Novo eram, entre os de todas as vanguardas citadas, os mais engajados socialmente, e o que mais chegaram perto de um fazer político convencional. Também é digna de nota a chamada ‘Estética da Fome’ que permeava os filmes dessa vanguarda, talvez o maior ponto de influência do neorrealismo italiano. Os filmes do Cinema Novo, além de mostrar pessoas pobres, eram evidentemente “pobres” também, sob vários aspectos. As imagens eram duras e até sujas, sem o polimento visual e o glamour que aparece até na direção de fotografia dos filmes de Hollywood; o som geralmente não era captado diretamente, o que era mais barato, e as trilhas sonoras não tinham pompa ou requinte, geralmente sendo constituídas de músicas típicas da região mostrada, ou de compositores brasileiros como Villa-Lobos; até a montagem não parecia tão clara, organizada e imperceptível como na estética hollywoodiana. Todos esses fatores podem ser vistos como defeitos, mas o Cinema Novo parecia ostentá-los com orgulho, até, e como uma maneira própria de demonstrar autonomia.
            Uma parte considerável desses cineastas, por uma variedade de motivos, não alcançou o sucesso almejado e teve apenas uns poucos e bons anos, com pouquíssimos nomes se mantendo em bom nível e chegando a fazer filmes de qualidade por décadas, como Malick, Scorsese, Forman, Rohmer, Truffaut, Godard, Altman e Spielberg. Numa década tão turbulenta, é até normal que tenham havido algumas “baixas”. Mas o fato é que os cineastas dos anos 60, cada um à sua maneira, faziam política filmando desde as condições precárias dos trabalhadores do sertão nordestino até as viagens (tanto as “psicodélicas” quantos as por estradas) de motoqueiros hippies. E o cinema nunca mais foi o mesmo depois disso.


            É impossível falar do cinema dos anos 60 sem ao menos esboçar uma análise mais geral do contexto, separando tudo por grupos distintos, mas também é impossível fazê-lo sem destacar alguns filmes em particular, ainda que brevemente:

- Antes da Revolução (1964), de Bernardo Bertolucci: ao contrário do que o título possa sugerir, essa obra de Bertolucci (então com 22 anos) demonstra como poucas a frustração da juventude em relação à sua própria incapacidade de alcançar seus sonhos – tanto relacionados ao amor impossível quanto a revoluções socialistas -, por causa das amarras da ideologia burguesa. A mesma geração que abraçaria e tentaria uma revolução alguns anos depois.
- Terra em transe (1967), de Glauber Rocha: o filme de Glauber Rocha se passa em um país latino-americano fictício chamado El Dorado, claramente inspirado no Brasil, povoado por um povo alienado e sem esperança e dominado por poderosos ricos e corruptos. Neste filme, talvez a maior crítica social de Glauber Rocha em filme, ele não poupa ninguém: o clero, o populismo, os políticos de direita, os esquerdistas revolucionários, os jornais... todos saem feridos. ‘Terra em Transe’ traz ainda uma reflexão (bastante pessoal) sobre o papel político do artista.
-Bonnie & Clyde (1967), de Arthur Penn: este filme abriu as portas para a Nova Hollywood, aproveitando a maior abertura para temas polêmicos por causa do fim do chamado Código de Produção para chocar e maravilhar espectadores e críticos. A forma quase romântica com que os foras-da-lei do título são tratados, a estilização da violência e o realismo brutal chocaram o público, ainda acostumado com os melodramas de Hollywood.
-Se... (1968), de Lindsay Anderson: Se... é provavelmente o mais emblemático filme de 1968, demonstrando o fervor revolucionário da juventude como ninguém. Este filme chocou o público com cenas de sexo explícito e anárquicos estudantes agindo como guerrilheiros e se revoltando contra sua própria escola, atacando seu diretor e outras figuras de opressão.
-2001: Uma Odisséia no Espaço (1968), de Stanley Kubrick: impossível não falar de filmes de 1968 ou da década de 1960 e não falar de 2001, filme que essa semana revigorou sua aclamação como um dos cinco melhores da história através da respeitada votação feita pela revista Sight And Sound. Kubrick desafiou o intelecto até dos mais respeitados críticos e cineastas, causando admiração e incredulidade com uma obra-prima que quebraria várias barreiras relacionadas ao que se podia fazer em um filme até se fosse lançada neste ano. Até as declarações de Kubrick a respeito do filme na época, falando de como não falaria do significado da obra porque acreditava que ela era uma “experiência não-verbal”, são lembradas até hoje.
-Blow-Up (1966), de Michelangelo Antonioni: com este filme (talvez seu mais conhecido até hoje), Antonioni fez o retrato da alienação e inquietação de uma geração, através de situações estranhas em que a realidade é questionada e quebra de barreiras (a nudez e sexualidade aberta do filme foram bastante polêmicas na época). Também é digna de nota a cena em que a banda inglesa de rock The Yardbirds toca uma música, sendo esta uma das primeiras aproximações entre rock e “cinema de arte”.
-A Chinesa (1967), de Jean-Luc Godard: Godard continuava a desafiar convenções narrativas e limitações relacionadas a gênero em seus filmes, mas obras como essa e outras dos anos anteriores (65 e 66) serviram de preparação para uma fase explicitamente política de Godard, em contraste com os filmes mais “alienados” do início de sua carreira. A Chinesa mostra uma nova geração de jovens burgueses determinados a aprender com e discutir as teorias socialistas de Mao, Lênin e Marx, ainda que sem muito comprometimento. Essa geração atingiria seu apogeu nos eventos de Maio de 68, dos quais Godard participou forçando (junto com outros cineastas, com o Truffaut) o Festival de Cannes a ser cancelado como forma de apoio aos estudantes e revoltosos em geral.
-Dr. Fantástico ou Como Aprendi A Parar de Me Preocupar E Amar A Bomba (1964), de Stanley Kubrick: acostumado a causar polêmica com seus filmes desde Lolita em 62, Kubrick continuou essa tradição com Dr. Fantástico, seu próximo filme. Ao perceber a situação bizarra que tinha em mãos, Kubrick transformou o que era antes um filme sério baseado em um livro sério numa sátira política de humor negro. Com essa comédia hilária, o diretor evidenciou o apocalipse nuclear evidente, o caráter surreal da guerra e a loucura dos que a administram.
-A Viagem (1967), de Roger Corman: A Viagem não está citado aqui por sua qualidade (em vários momentos ele chega a parecer bizarro, ainda que sem querer), mas por evidenciar a situação dos jovens americanos da época. O roteiro (autobiográfico) escrito por Jack Nicholson mostra um homem em busca da cura para suas desilusões amorosas através de viagens psicodélicas de LSD. O filme foi feito por um hippie e protagonizado por hippies (Dennis Hopper e Peter Fonda, que mais tarde estrelariam em Sem Destino), o que por si só já é estranho, mas o fato de ter sido feito mostra que seu público-alvo (os próprios hippies) já eram presença significativa entre os jovens americanos naquele ano.
-O Bandido da Luz Vermelha (1968), de Rogério Sganzerla: talvez este filme seja o maior exemplo de uma vertente do Cinema Novo surgida no Brasil, chamada de Cinema Marginal. Em vez de criticar a situação sociopolítica da sociedade através de ficções que mais pareciam realidade e de um compromisso ético em relação ao público, se distanciando do engajamento político. N’O Bandido da Luz Vermelha, Sganzerla se aproveitou dos mais diversos gêneros do cinema num processo antropofágico digno de Oswald de Andrade, satirizando a tudo e a todos com humor, fantasia, violência e amoralidade.

Morin na "prática": uma conversa com Michel Zaidan e Cristina Teixeira


Por: Daniel M. de Andrade Lima, Isabela Almeida, Marcela Lins, 
Marcela Pereira, Marina Didier, Moema França e Ursula Neumann

Em um dos trechos do livro A Cabeça bem-feita, Edgar Morin escreve que "conhecer o humano não é separá-lo do Universo, mas situá-lo nele". Com base na ideia de fragmentação dos saberes (a divisão dos conhecimentos em disciplinas de maneira que não se relacionem, por exemplo) e em como isso influencia o modelo educacional atual, conversamos com Michel Zaidan, professor do Departamento de História da UFPE, e com Cristina Teixeira, do Departamento de Comunicação Social da UFPE para saber o eles acham sobre a interdisciplinaridade e as ligações dos saberes de áreas diferentes.

ALUNOS DE JORNALISMO: Como você enxerga a importância das outras áreas de estudo?

MICHEL ZAIDAN: Para mim, que tenho formação filosófica, o conhecimento humano só se coloca da perspectiva do objeto (do ser), não do método (sujeito ou consciência cogniscente). Neste sentido, a minha perspectiva cognoscitiva é ontológica, não metodológica. Dessa forma, a inter-relação, a interdisciplinaridade, a compressão holística, do ponto de vista da totalidade é fundamental. A separação das ciências e disciplinas é uma criação positivista. A separação estanque das ciências é responsável pela fragmentação do conhecimento humano e a perda de vista da totalidade. Isso tem implicações éticas, políticas e cognitivas. Precisamos voltar a pensar ontologicamente.


ALUNOS DE JORNALISMO: O que você acha da interdisciplinaridade?


MICHEL ZAIDAN: Como mero recurso metodológico é insuficiente. Precisamos avançar para uma compreensão holística da realidade. Onde as coisas se inter-relacionam necessariamente. Na verdade, é um novo paradigma, chamado paradigma ecológico profundo, bem exposto no livro O ponto de mutação, de Kappra.

ALUNOS DE JORNALISMO:O que você acha da metodologia de ensino dentro das escolas?

MICHEL ZAIDAN: Muito positivista. Fragmentário. Estanque. Não leva à compreensão integrada da vida, da sociedade e da história. Forma apenas o chamado "cidadão disciplinar" de Foucault. Pagador de impostos e temente dos castigos da lei positiva. Todo o discurso da inter/multidisciplinaridade é só um discurso, sem prática, sem consequências epistemológicas. Faria bem a escola ler Edgar Morin e sua teoria da complexidade.


Entrevista com Cristina Teixeira:












A Cabeça Bem-feita


   

Uma conversa entre Daniel M. de Andrade Lima, Isabela Almeida, Marcela Lins, 
Marcela Pereira, Marina Didier, Moema França e Ursula Neumann.

Numa tentativa de seguir a reestruturação do pensar proposto por Morin em “A cabeça bem-feita”, discutimos os assuntos mais significantes (pelo menos em nossas visões pessoais) debatidos pelo autor no livro, de forma descontraída e sem roteiro. Deixando a conversa fluir naturalmente, utilizamos como meio de comunicação o mecanismo de fórum do site de relacionamentos FACEBOOK, abrindo mão da linguagem academicista e entrando num dispositivo de hipertexto. Dentre discordâncias, convergências, brainstorms e devaneios, seguem os nossos comentários sobre o livro, com todas suas características individuais e, ao mesmo tempo, companheirismo entre amigos:

— Morin diz que seu livro é como um Emílio contemporâneo, “manual” para alunos e professores. Pode até ser encarado pelo leitor como uma espécie de manifesto. Fala sobre a necessidade de uma reforma do pensamento e, portanto, do ensino. O autor o escreveu tendo em mente um ensino educativo, que não quer transmitir só o mero saber, mas um modo de pensar aberto e livre que nos ajude a viver.”
— Essa parte aqui e aquela citação de Pascal que ele repete mil vezes, pra mim resume muito a idéia geral do livro: “Efetivamente, a inteligência que só sabe separar fragmenta o complexo do mundo em pedaços separados, fraciona os problemas, unidimensionaliza o multidimensional. Atrofia as possibilidades de compreensão e de reflexão, eliminando assim as oportunidades de um julgamento corretivo ou de uma visão a longo prazo. Sua insuficiência para tratar nossos problemas mais graves constitui um dos mais graves problemas que enfrentamos”.
— Acho que dá pra adicionar que ele valoriza o encorajamento da criatividade, encarando-a como uma faculdade importante nos jovens. De forma que o ensino educativo deve estimular o espírito livre e, assim, um didatismo que estimule a importância do auto-didatismo.
— E que ele defende que a qualidade de contextualizar e integrar ideias que a mente humana possui deve ser desenvolvida e não atrofiada.
            — "Em vez de corrigir esses desenvolvimentos, nosso sistema de ensino obedece a eles".



— "A reforma do ensino deve levar à reforma do pensamento, e a reforma do pensamento deve levar à reforma do ensino".
— “Reformar o pensamento não é uma mudança programática, mas sim paradigmática e altamente necessária para a democracia cognitiva. É um desafio sociológico, cívico e cultural.”
            — Estamos fragmentando ideias de um todo, que é o livro.
—Vou jogar um super brainstorm:
“1-O termo formação, com suas conotações de moldagem e conformação, tem o defeito de ignorar que a missão do didatismo é encorajar o autodidatismo. Os desenvolvimentos disciplinares das ciências não só trouxeram as vantagens da divisão do trabalho, mas também os inconvenientes da superespecialização, do confinamento e despedaçamento do saber. Crítica à escola primária, uma vez que esta isola os objetos, separa as disciplinas e dissocia os problemas. O conhecimento progride não por abstração ou sofisticação, mas pela capacidade de contextualizar e englobar. O conhecimento só é conhecimento enquanto organização, relacionando com as informações e inserido no contexto destas. As informações constituem parcelas dispersas do saber.
2- Crítica à ruptura das ciências naturais e humanas, agravada no século XX. Ao passo que as ciências humanas se orientam sob uma ótica mais questionadora, que estimula as reflexões sobre o saber e às próprias questões humanas, é o saber científico "exato" que conquista descobertas e teorias, mas sem que haja um questionamento em torno desse "fazer ciência" e do destino da humanidade.
3- Crítica de Morin ao pensamento de Habermas, quando este atribui às ciências naturais a função de corroborar com uma razão automizada... Talvez aqui que entre a questão da necessidade da união destas duas esferas de saber. O enfraquecimento de uma percepção global leva ao enfraquecimento do senso de responsabilidade, afinal, cada um tende a ser responsável apenas pela sua tarefa especializada, bem como ao enfraquecimento da solidariedade (ninguém mais preserva seu elo orgânico com a cidade e seus concidadãos).
4- Importância da cognição para a própria democracia, porcamente compensada pela vulgarização do aparelho midiático. Um ensino primário que não instiga a curiosidade com a mera instrução. Uma vez um amigo disse "a escola matou minha paixão pelo saber, agora que estou começando a retomar esse sentimento" achei lindo e triste. Revolução nas ciências naturais com as novas teorias – incerteza na física e na biologia – subverter a ordem do mundo, perfeição para dar espaço a um modo de entender a ordem e a desordem. Todo nosso ensino tende para o programa, ao passo que a vida exige estratégia (achei isso massa). Precisamos estar munidos da ideia das incertezas e de racionalidade autocrítica para nos atentarmos aos erros Literatura, Poesia e Cinema devem ser considerados não apenas objetos de análises gramaticais ou semióticas, mas também escolas de vida, em seus múltiplos sentidos. É a escola da descoberta de si (achei isso muito lindo também).”
— Eu tava falando com Cela e achei engraçado ele dividir os desafios em sociológico, cívico e cultural, afinal, pra mim, seria mais metalingüístico e coerente se ele falasse apenas de desafios, unindo os três, e não segregando. Ficou parecendo que ele caiu no didatismo que critica.
— Numa crítica à hiperespecialização, Morin diz que quanto mais desenvolvida a inteligência geral, maior é a capacidade de tratar problemas especiais. Os problemas, mesmo que particulares, só podem ser pensados corretamente se posicionados em seus contextos. Além disso, seus contextos precisam também ser posicionados no contexto planetário.
— Um lance que eu achei muito bom de Morin é que eu senti uma crítica a essa instrumentalização do saber, sabe? Ele deixa de lado essa concepção muito banal do conhecimento que é em situações como "vou estudar pra fazer prova/trabalho" pra jogar na cara da gente que conhecimento não é isso. Achei tão lindo.



— Eu gosto quando ele cita T.S.Eliot pra perguntar: "onde está todo o conhecimento que perdemos na informação?".
— “E onde está a sabedoria que perdemos no conhecimento?”.
— Quando eu leio esse livro eu me lembro do meu vestibular e de alguns professores que tentavam aplicar algumas coisas de Morin na minha vida daí eu fico me reconhecendo em muitas frases e em muitas páginas.
— Fiquei muito assim quando li o trecho que falava dos desafios e que dizia que "o mundo técnico vê na cultura das humanidades apenas um ornamento ou luxo estético" e é engraçado como na prática o científico vê isso dessa forma mesmo... Como uma coisa extra, mas como cultura "inútil"...
— Isso é bem verdade!
— E ao mesmo tempo o "mundo das humanidades vê na ciência apenas um amontoado de saberes abstratos e ameaçadores".
— Tem uma discussão que não lembro se ele aprofunda depois, mas é quando ele diz assim: "Quanto mais técnica torna-se a política, mais regride a competência democrática".
— É, pois é, eu fico vendo isso daí bem na prática quando as áreas do conhecimento se xingam (risos) tipo na faculdade, quem tem conhecimentos gerais geralmente é o pessoal de humanas.
— Mas depois ele explica como a literatura e a filosofia são muito mais importantes do que se imagina.
— E quem deveria suprir essa função, se não for a escola, são os meios de comunicação, mas os meios de comunicação não dão conta disso, aí fica tudo fragmentado.
— Acho massa isso dele enaltecer a filosofia.
— Um óbvio genial: as artes devem se legítimas enquanto formas de entender o mundo e de se entender.
— Importância da literatura e do cinema.
— Gente, eu me lembrei do livro que a professora Nina (Velasco) mandou a gente ler, "O Tempo Passado" que a gente vive através dessas obras, porque nós temos um potencial e é através da arte que a gente se enxerga e enxerga as possibilidades
— Ele fala que a filosofia é, hoje, retraída, quase fechada em si mesma e que deve voltar à "missão" de antes. Diz que os professores de filosofia devem estender esse poder de reflexão dela pros conhecimentos científicos, pra literatura, pra poesia, etc.
— O objetivo da educação não é o de transmitir conhecimentos sempre mais numerosos ao aluno (e parece que é, né?!) mas o "de criar nele um estado interior profundo, uma espécie de polaridade de espírito que o oriente em um sentido definido, não apenas durante a infância, mas por toda vida".
— Eu mudei de opinião sobre Morin se contradizer quando divide os três desafios, e não acho que ele tá usando um didatismo que ele mesmo critica. Porque ele precisa usar algum didatismo pra explicar as ideias dele, mas em nenhum momento ele tá diluindo o universal e o global pra facilitar o entendimento. Ele facilita o entendimento com o jeito que ele explica o livro, mas ele não isola os conhecimentos, ele consegue ligar bem as ideias O que ele faz no livro é organizar como uma "cabeça bem-feita", pra dar sentido, ao invés de acumular o saber de qualquer jeito.
— Eu acho válido porque ele tem que se expressar e no mundo que a gente vive a forma de passar o saber é essa. Mas pra mim ele dividir os desafios foi uma compartimentalização desnecessária.
— Eu sei, eu só achei ato falho. Mostra que por mais que ele tente criar essa ideia de cabeça bem-feita, ele não se desliga completamente, nem tão parcialmente, de como as coisas são hoje.
— Outra coisa que eu anotei: a curiosidade é extinta pela instrução. Eu acho tão lindo o pensamento das crianças, elas conseguem fazer o que é natural muito mais do que a gente.
— Essa coisa de dividir os 3 desafios, concordo com Moema. Ele dividiu, mas não parou nunca de integrá-los e ainda no final ele fala do "desafio dos desafios", meio que sintetizando os 3.
— A frase que sintetiza mais o desafio cívico, por exemplo, é "a necessidade de uma democracia cognitiva" e isso ele fala também nos outros 2.
— E acho ainda que ele não reclama das coisas do jeito que estão hoje nesse sentido de que é pra parar com o didatismo. O didatismo precisa existir pra ensinar as coisas, ele só é ruim quando fragmenta coisas e desconecta ideias e pensamentos e quando não incita o auto-didatismo.
— Ó, sobre a ecologia, a ciência da Terra e a Cosmologia: essas ciências organizam um saber anteriormente disperso e compartimentado. Ressuscitam o mundo, a Terra, a natureza e, de uma nova maneira, despertam questões fundamentais: o que é o mundo, o que é a nossa Terra, de onde viemos? Elas nos permitem inserir e situar a condição humana no cosmo, na Terra, na vida.
— Então o estudo da condição humana não depende só das ciências humanas. A pesquisa sobre o cosmo e a natureza responde um pouco isso também... (cap. 3). Depois ele começa a falar sobre as partes e o todo (que eu achei o tema mais legal do livro inteiro): estamos em um planeta minúsculo, satélite de um Sol de subúrbio, astro pigmeu. Assim como a vida terrestre é extremamente marginal no cosmo, somos marginais na vida. O homem surgiu marginalmente no mundo animal e o seu desenvolvimento marginalizou-o ainda mais.
— Trazemos dentro de nós o mundo físico, o mundo químico, o mundo vivo e, ao mesmo tempo, deles estamos separados por nosso pensamento, nossa consciência, nossa cultura. Assim, Cosmologia, ciências da Terra, Biologia e Ecologia permitem situar a dupla condição humana: natural e meta-natural.
— Ah, isso é massa demais.
— Muito massa isso: nós somos uma ramificação da ramificação de uma evolução dos vertebrados, dos mamíferos, dos primatas, portadores em nós das herdeiras, filhas, irmãs das primeiras células vivas. Pelo nascimento, participamos da aventura biológica; pela morte, participamos da tragédia cósmica. O ser mais corriqueiro, o destino mais banal participa dessa tragédia e dessa aventura.
— É LINDO!!!!!.
— Quando eu li essa parte mandei fazer uma camiseta e tatuei nas minhas costas já
— Sério,esse livro é fodástico demais... Me fez ficar pensando por um tempão.